10/06/2015

||| não volto. fim...


||| ... é tempo de parar por aqui. 
... este blog não será actualizado em breve...
... obrigado a quem leu.
... a quem visitou.
... até sempre.

||| arte [im]perfeita...

josefa d'óbidos

||| a escola que eu sonho...


||| ... das coisas que mais me custam é saber que desisti desta escola. não acredito em nada do que ela representa. resta só, ainda, ser um lugar onde estão todos. a escola que eu sonho não é esta. nunca foi. nunca será. e quem está mal, muda-se. assim o fiz. lutei anos e anos, perdi muito mais do que ganhei, por tudo aquilo que acreditei poder ser uma escola de liberdade, conhecimento e curiosidade. o sentido é o inverso. e tudo parece correr bem. queria uma escola sem muros. de portas abertas. de gente que sabe e que aprende. de partilhas. de leituras. de conversas. acredito que a escola pode ser tudo isso. nunca deixarei de acreditar. não há lugar para mim neste sistema. mesmo tendo tentado mais do que devia. é tempo de fechar as portas. é-se professor. é uma essência que nos define. não é uma profissão. mas há um tempo para tudo. para acreditar. e para ver que estamos a mais. que errámos demais. que falhámos, connosco e com os outros. mas acima de tudo, porque não conseguimos mudar nada. por isso, cada palavra que poderia vir a escrever aqui no futuro seria desligada da realidade. e nada há de mais triste do que isso. não deixarei de acreditar, nunca, noutra escola. nunca. mas isso agora será só um pensamento no silêncio dos deuses...

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...




||| música [im]perfeita...

||| ensinar a memória histórica...


||| ... existirá o dia em que o dia de um país seja celebrado na escola. sem militares. sem forças. nem paradas. nem discursos. nem gente a mais. nem condecorações. só um dia de um país numa escola. em visita. com encontro com o que sabemos. o que desejamos saber. com o que somos e desejamos ser. um dia o dia de um país será futuro. nenhum espaço público encerra mais futuro do que a escola. ninguém se lembra disso. num país que se quer cinzento e estúpido. ninguém quer saber que a escola e o esclarecimento são os lugares que todos devíamos habitar num dia em que se celebra a cultura. ninguém que saber da cultura. é por isso que as escolas, hoje, estão encerradas e as festas estão nas mãos daqueles que julgam ser donos disto e do amanhã. talvez um dia isto mude. talvez...


09/06/2015

||| arte [im]perfeita...

silva porto

||| o tempo da incerteza na escola...


||| ... recebi, numa rede social a que dedico cada vez menos tempo ou quase tempo nenhum, um convite para aderir a um grupo de apoio à manutenção de um professor por um grupo de alunos para o próximo ano lectivo. deviam gostar dele e queriam que pudesse ficar na escola. este é o tempo que se instala. o da incerteza. ou do fecho de relações. os professores, como os alunos, já aprenderam isso também. que as relações no espaço escolar passaram a ter um tempo de vida curto. um ano lectivo, na maioria dos casos. menos até. mas agora também, o seu contrário. aqueles professores que são da escola. estão lá. tempo demais. tudo isto baralha tudo o que deve ser a essência da escola. há um imenso número de professores para quem este é esse tempo. de profunda, triste e injusta incerteza. o mesmo para os alunos. há nisto algo de muito, mas muito errado. que vai continuar. continuar porque o sistema criado alimenta isto porque necessita disto. mesmo que achemos todos que não...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas....



||| coisas [im]perfeitas...


||| as palavras que faltam à escola...


||| ... devia ser obrigatório ter isto escrito nas paredes de todas as escolas [para todos lerem]...

«...se grandes invenções ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, também se põe como fora de dúvida que mais rapidamente se avançou quando foi possível fixar inteligência em escrita, quando o saber se pôde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. ao livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milhões de páginas de discorrer ou emoção humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. leia. milhões de homens, porém, no mundo actual estão incapacitados de escrever e de ler, muito menos porque faltam métodos e meios do que incitamento que os levante acima do seu tão difícil quotidiano e vontade de quem mais pode de que seus reais irmãos mais dependam de si próprios do que de exteriores e quase sempre enganadoras salvações. mais se comunica falando do que de qualquer outra forma; o que nos dizem muitas vezes nos parece de nenhuma importância, mas talvez tenha havido uma falha na atitude de escutar do que no conteúdo do que se disse; porventura a palavra-chave estava aí, mas estávamos distraídos, ou ansiosos por nós próprios falarmos; e no vento fugiu, a outros ouvidos ou a nenhuns. ouça. no tempo em que a antropologia ainda julgava que o homem descendia do macaco notou-se, para os distinguir, que um, mesmo no estádio mais primitivo, desenhava; o outro, mesmo que antropóide superior, nem olhava o desenho. imagem nos veio acompanhando pela história fora, desde as pinturas ou gravuras rupestres, cujo verdadeiro significado ainda está por encontrar, até cinema ou televisão, sobre cujo significado igualmente muitas vezes nos podemos interrogar e que se tem de arrancar o mais depressa possível ao domínio do lucro, da publicidade ou das propagandas ideológicas para que possam cumprir, como nas formas mais antigas, a sua missão de iluminar, inspirar e consagrar o mundo. imagem o cerca. veja. mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, excepto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. a tudo pese. pense.»

agostinho da silva

06/06/2015

||| arte [im]perfeita...

edward hopper

||| mais experimentalismos na escola...


||| ... com o cheiro das eleições surgem as propostas. as escolas independentes. a cultura grega e o latim. o regresso da educação de adultos. o rigor no ensino superior e o fim do sistema dual. a aposta no "profissional". seja de que lado for, tudo é remendo. sou daqueles que defende que estamos a andar há demasiado tempo num carro com os pneus com mais remendos do que borracha. é preciso mudar o carro. e mudar os pneus. seja por um conselho de sábios, seja por inspiração divina, o sistema educativo precisa mudar. de raiz. radicalmente. como está não é resposta para nada nem para ninguém. pior, agrava a situação social, comunitária e integradora de quem o frequenta. ou, por outro lado, potencia a desigualdade. de todas as formas, não serve. não funciona. não transforma. não cria "riqueza" como modernamente se diz. eu que já desisti verdadeiramente desta escola e já estou longe dela sinto cada vez mais isto. era preciso uma verdadeira evolução da escola. para algo mais. melhor. diferente. que fosse, de facto, promotor de conhecimento e de futuro. fica a esperança. numa loucura. mas das grandes. porque é mais do que necessária. é urgente...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| perceber o simples...


||| ... às vezes penso na escola. naqueles miúdos que uma vez me surpreenderam com uma maquete de lisboa antes do terramoto feita em gelatina. ou do miúdo a quem ofereci um martelo depois de uma tarde inteira a preparar uma feira medieval sob um sol abrasador. ou das aulas dadas na rua. ou das perguntas complexas sem saberem bem que o são. dos testes que provocaram mais do que testavam. dos absurdos ditos em jeito de humor preciso e urgente nos dias cinzentos. dos ataques de risos. dos gestos feitos para calar tudo e todos porque era preciso ouvir. da miúda que precisava só de um abraço. do miúdo que precisava dizer alguém que o pai lhe batia mais do que era suposto. dessas coisas todas. boas e más. às vezes penso nessa escola. na minha escola. e tenho, verdadeiramente, saudades de quando havia uma escola onde habitavam pessoas...

29/05/2015

||| arte [im]perfeita...

pollock

||| aprender a ensinar...


||| ... ó colega, desculpe. já tentou ensinar estes miúdos? eu?!!! nada! eles não querem saber de nada!!! ora bem, quantas estratégias já tentou? todas! tudo e mais alguma coisa! só me falta fazer o pino! e ensinar? já tentou? ó pá, colega, mas eles não querem saber disso! será? eu consigo ensinar qualquer coisa a estes miúdos. porque quero ensinar-lhes qualquer coisa. como um dia me ensinaram a mim. porque a terra é redonda. porque escrevemos letras. porque é que os animais dormem. comece pelo mais óbvio e surpreendente para eles. sabe, quando peguei na turma a primeira coisa que me disseram é que eram impossível. que era só manter a rapaziada sentada e sossegada. que era esse o sucesso esperado. cheguei à primeira aula e disse-lhes que no fim do primeiro período todos teriam que ter lido um livro. nenhum acreditou. hoje, como sabe, aquela turma é a que mais vai requisitar e ler livros. porque não começaram com a odisseia. comecei com o tio patinhas. mas ensinar é isso. é ensinar a ler. depois e compreender. depois a pensar. e depois a criar. nós é que já nem nos lembramos disto. e calou-se. e lá foi, sem me dar resposta...

||| leituras [im]perfeitas...


||| coisas [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| ensinar o simplismo...


||| ...de tanto queremos descodificar as coisas, simplificar, tornámos os miúdos dependentes disso. é como um reflexo condicionado. o que é para fazer aqui? como se fosse preciso uma legenda sonora para cada pergunta. a incapacidade de reflexão é de tal modo aguda que assusta. a incapacidade de compreensão é de tal modo forte que é devastador para um professor desafiar os alunos para o que quer que seja. o esforço que precisa gastar até se fazer entender é brutal. é imenso. quando, todos, percebem, acabou o tempo necessário para o desafio. estamos no grau máximo da estupidificação do sistema que vive disto. de testar isto interminavelmente. e continuamos como se tal fosse coisa correcta. ler é coisa de poucos. entender é coisa de privilegiados. estudar não está na moda. é só mesmo, talvez, a ignorância. a moda. infelizmente, é-o, no local mais improvável: a escola...

26/05/2015

||| arte [im]perfeita...

magritte

||| falar do espanto não é espantar...


||| ... durante muito tempo me perguntaram porque falava em espanto. em redescobrir o espanto. em dar aos miúdos coisas de espantar. respondi sempre que era esse o primeiro passo para a curiosidade. algo que nos absorve a observação e nos coloca a dúvida. o que está ali? aqui? como funciona? a escola sofreu de um mal maior. foi pensar que a pergunta que levava os miúdos a gostarem de aprender seria o porquê. o segredo está que os miúdos querem saber é o como. com o como chegamos ao porquê e não ao contrário. ao contrário temos o modelo que agora temos. o lugar do espanto está reservado à primeira das perguntas que fazemos sempre. como? é natural queremos saber isso. se esse for o mote da nossa aula, do nosso trabalho, despertar esse espanto para a pergunta, sabemos que abrimos caminhos a muitas outros que se seguem. perguntar é preciso. e urgente. mas a pergunta que nasça do espanto. antes da razão explicar o que quer que seja. a escola ganharia muito se alguém fosse capaz de colocar tudo noutra ordem...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| a cultura é a única forma de dar liberdade...


||| ... que seja sempre livre o seu pensamento professor. aprendi o mundo consigo. no passado dia vinte e cinco, jubilou. foi meu professor de teoria da história. chama-se fernando catroga. jubilou. a ele devo o pensamento livre. pensar o fim do fim da história. as aulas onde o som das suas palavras eram mais do que simples correr de frases. era o movimento do pensamento. inventem-se sempre novas palavras. a meio do discurso infinito saltava uma nova. cosmogonia. que entendam os deuses e os homens de boa vontade. pedi-lhe um dia ajuda para estudar os movimentos anarquistas em portugal. disse-me: leia padre antónio vieira. estranhei. depois percebi. disse-me a frase que guardo em mim como certeza absoluta do que sou e do que sei. a cultura é a única forma de dar, verdadeiramente, liberdade a alguém. é iluminação. não volta ao estado de onde partiu. que as suas palavras e a sua visão da história sejam ensinadas. obrigado, deste seu eterno aluno, pelo caminhos que me deu para explorar...

23/05/2015

||| arte [im]perfeita...

júlio pomar

||| a cultura do exame...


||| ... os horários dos professores, por estes dias, são ocupados por "vigilâncias". horas e horas de andar de pé de cá para lá a vigiar quem faz exame. e ainda são só os primeiros. a escola chega a esta altura cercada pela ideia de que é preciso ser bom no exame para ser bom aluno. tudo, este ano, desembocou aqui. se não são os exames são as carradas de testes para ver. rever. classificar. ouvir os miúdos dizerem que precisam de uma boa nota para "arranjar emprego". aos doze ou menos anos. pressionados pelo universo de falta dos pais. ou de quem está com eles. era preciso explicar que tudo é relativo, nesse momento. não o valorizar mas integrar no percurso. testar não faz mal. tudo ser um teste é que sim. e cada miúdo ser uma nota ainda é pior. esta "cultura" de exames é imposta por nós, principalmente. porque o temor é maior do que a razão. e o cansaço é maior do que a oportunidade necessária de dizer não. que estudar não pode ser só "fazer um exame". ou "ter uma nota". que o conhecimento não é isto. nem é para ser usado só nisto. nem para transformar todos em "réplicas" uns dos outros como se todos, num portugal cada vez mais desigual, fossem, de facto, iguais. rever prioridades é preciso...

||| música [im]perfeita...

||| coisas [im]perfeitas...


||| leituras [im]perfeitas...


||| aproximar a escola...


||| ... trocava, recentemente, umas ideias sobre esta coisa das mega escola e dos centros escolares. da escola estar perto do local onde as pessoas vivem ou nos centros onde há mais "oportunidades". se sou defensor dessa igualdade de oportunidades para todos os miúdos o mesmo não se passa com este desenraizamento que é feito e no que se está a transformar tudo isto. mal comparado, parecem um aviário as escolas de tamanho imenso. basta entrar numa. sem identidade que não seja a própria da escola que pode ser forte ou fraca consoante o seu projecto educativo, a verdade é que turmas com trinta miúdos, dos pequenos aos jovens, tornaram-se em lugares de vazio de razão e sentido. as oportunidade não surgem por haver uma biblioteca toda equipada ou uma sala com projector que não havia na escola pequena e de centro de aldeia ou terra. surge pela razão que se dá à escolarização. o seu sentido. para o que é pensada para servir. a proximidade com aqueles que acarinham a escola não tem preço. basta ver uma qualquer criança numa qualquer escola ainda por extinguir e ouvir: esta é a minha escola. coisa que raramente se ouve nos grandes espaços. "ando ali"... é mais isso...

18/05/2015

||| arte [im]perfeita...

orson welles

||| falhámos todos...


||| ... vi, a cena do polícia que bateu no pai e no avô. vi o rosto do filho mais novo. pensei imediatamente: falhámos todos. salvou-se quem tentou olhar pelo rapaz. assustou-me que ninguém tivesse segurado o polícia que cegamente batia. a autoridade não é dada. é merecida. a roupa é só roupa. o que importa é que tudo é um acto humano. falhámos todos. porque todos os personagens desta cena vivem em sociedade. na mesma em que eu vivo. porque, certamente, passaram pela escola. porque era só um momento desportivo. não importa a razão ou a troca de razões. importa a violência, imposta como linguagem principal antes de todas as outras. seja entre jovens, seja entre adultos, seja com ou sem autoridade. é a imposição da selvajaria. sobre a razão. as pessoas estão piores. e o país também. falhámos todos. só espero que aquele miúdo não esqueça o que viveu. e seja um dia um homem com imenso poder neste país. e nos guie no caminho que o unia ao seu pai. por quem chorou em desespero. que ele seja bom. e mude o mundo. resta essa esperança no dia em que falhámos todos...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| coisas [im]perfeitas...






||| do tempo das coisas certas na escola...


||| ... pensar nesta geração. houve quem tivesse entrado para a "escola" com meses. meses de vida. colocados no sistema. à sua guarda. porque os pais, esses, tinham trabalho para cumprir. não por opção. tantas vezes, sem opção, é esse o caminho. e depois tudo corre com a sorte ou não. desses meses ao décimo segundo ano. e diria mais: para alguns, até ao fim do ensino superior. frutos de um sistema que os deseja quietos e responsáveis. tudo ou quase tudo feito fora do seu tempo. a escolarização do pré-escolar é o maior atentado ao direito de ser criança que existe. do lado oposto, um ensino superior repetitivo e castrado no livre arbítrio e livre pensamento faz técnicos. produz, técnicos. no meio, a escola tornou-se uma prisão. um lugar onde se está como se podia estar em qualquer outro lugar. a educação passou a ser um luxo de quem pode ter outras regras de vida que não sejam aquelas dos horários para cumprir e dos sistemas que se acumulam uns sobre os outros. um luxo. de tempos a tempos surge uma notícia de uma escola inovadora. recentemente uma onde não havia computadores. achamos inovador tudo o que não seja ordinário. sistemático. cinzento. em modelo de "aviário". é um cenário estranho este. que fingimos não ver. mas vivemos, nas escolas...