28/02/2014

||| da evolução ou como perdemos o pé...


||| ... ir dar uma aula é como entrar no mar numa praia que não conhecemos. sempre. facilmente avançamos demais e perdemos o pé. isto no que diz respeito ao conhecimento científico. tantas vezes oiço: a história é sempre a mesma. não muda. e nada de mais errado existe nesta assumpção de que as coisas foram sempre assim e assim serão. o acesso constante a informação com um grau de rapidez e facilidade muito mais por parte dos alunos, assim como da nossa parte, colocam-nos perante um dilema. um dilema simples de resolver. mas um dilema. ou as verdades que nos ensinaram há vinte anos atrás num banco qualquer de uma universidade qualquer permanecem para nós válidos e imutáveis ou percebemos que qualquer ramo do conhecimento é uma ciência em construção e procuramos ser professores em actualização permanente. a primeira é mais fácil e cómoda, a segunda mais difícil e exigente. mas a verdade é que os tempos são para a luta permanente pelo saber. é que a verificação dos factos, em história como em qualquer ciência é hoje muito mais fácil. e podemos sempre ser confrontados com aquele aluno que procura o conhecimento de hoje para nos perguntar do fundamento daquilo que dizemos. a verdade, por exemplo, é que eu sou fruto de um misto do que foi a influência da cultura francesa com o início da influência do conhecimento produzido pelas diferentes fontes em inglês. mas sou li e estudei muito mais em francês do que em inglês. falo de livros, filmes, coisas que datam dos anos setenta. mas vou sempre procurar o que hoje se diz, faz, investiga. hoje. porque é hoje que ensino. e o mundo mudou. a escola mudou. eu e eles, os meus alunos, mudaram. e tudo isto importa porque a sala de aula deixou de ser um lugar fechado para o mundo. hoje este entra pela porta, pelas janelas, pelos espaços com a uma força avassaladora. e o professor, no seu tempo, tem que conseguir ser e pensar para além do que hoje tem nas mãos como manipulador da ciência que conhece. e parece que não mas muito do problema do "desligamento" da relação de todos [alunos e professores] com a escola passa por aqui. mesmo que a ninguém isto importe. mas passa.

||| música [im]perfeita...

||| ninguém gosta daquilo que tem...


||| ... ontem fui a escola alheia conversar sobre literatura e revolução. acho que não falei nem de uma, nem de outra coisa. não me lembro. recordo apenas três trocas de ideias no final da conversa. uma professora. uma aluna. um pai. o pai, empresário em terras de gente empreendedora dizia que acolhia jovens para estágios que não sabiam escrever. a quem tinha que corrigir os erros. a quem faltava a preparação para além da componente técnica que era boa. a aluna ia-se sentindo operadora. pedia menos memorização. menos ser aluno para exame. menos exames. queria criar. queria que apostassem nela para além da reprodução a que era obrigada. a professora queria fazer mais. melhor. as condições de um programa e das obrigações para cumprir não lhe permitem fazer o que é preciso. quer. não consegue. e aquela escola, espaço, projecto até me pareceu daqueles que aposta para além do que lhe é obrigatório cumprir. eram vinte e três horas e no dia seguinte as aulas começavam às oito e meia. mas estavam ali. na conversa. e isso importa para a maria e a débora que perante o desafio de (re)arranjarem músicas de tempos da revolução de abril cantaram nesta noite para explicar que a escola pode ir além do que é. e saí com a sensação que me acompanha como professor, nestes tempos de agora, que nenhum de nós tem a escola que quer. que deseja. que gosta. nenhum de nós se revê nesta coisa de tudo ser examinado. tudo se feito para ser estanque, igual, reproduzido. e como disse por lá, naquele momento, não está nas mãos de mais ninguém mudar o que temos sem ser nas nossas. só nos podem causar danos de espera, ouvi cantar. e pensei que esses são os danos que estamos a fazer à escola neste tempo presente que tem que cessar. porque ninguém gosta disto. ninguém se identifica com isto. e tem que nascer outra escola porque esta, como está, não serve ninguém.

27/02/2014

||| é pá hoje não me apetece cumprir o programa...


||| ... ontem tirei uma hora e vinte e sete minutos para ver um filme. quando era da idade dos meus alunos agora ficava até às cinco da manhã a ver os óscares. era a noite dos óscares e só acontecia uma vez no ano. uma hora e vinte e sete minutos para ver um filme nomeado para dez estatuetas douradas. dava-lhe meia de uma. chama-se gravity. dava-lhe meio óscar para a realização. o argumento é fraco. dos actores não falo que podia ser uma comédia romântica. e porque falo disto que nada está relacionado com as aulas? simples.porque falo disso com os meus alunos. lembro-me mesmo de uma vez que mandei o programa às urtigas e estive a falar com eles sobre cinema. fui um cinéfilo estranho e por isso quando falo de cinema lembro-me sempre de muitos filmes. e no princípio de uma aula que devia ser sobre o renascimento mandei tudo o que tinha previsto para aquele dia para bem longe, sentei-me numa cadeira, formei um círculo com os meus alunos e desatei a conversar sobre cinema. o problema é que eu sou daqueles que ia ver a poderosa afrodite de allen quando outros iam ver o dia da independência [que também vi]. e por isso consegui explicar aos meus alunos o que era o coro grego. o de onde vem a expressão: moral da história. ou simplesmente quais os planos principais na rodagem de um filme. como se engana o espectador. a revolução que hitchcock trouxe ao cinema. e fizemos experiências, naquela aula. em cima das mesas. para determinar planos de visão. eles de pé a fingir que filmavam num plano elevado uma manifestação. ensinei-os a olhar para as imagens. aquilo que riefenstahl nos ensinou. e falámos de mussolini e das fotografias de baixo para cima para parecer maior. ou da pintura da coroação de napoleão e de como tudo estava alterado para nos enganar. o renascimento ficou para outra aula. não perdi tempo. ganhei tempo. agora isto é quase impossível. porque não posso sumariar uma aula assim. até a posso dar. mas tenho que dizer que não a dei. porque me vão perguntar se cumpri o programa. quando me perguntam isso digo sempre que sim. e o infinito também. e mais além... 

||| a música [im]perfeita...

||| vamos, homem, que se faz tarde...


||| ... cumprir. se um visitante incauto fosse parar a uma sala de trabalho numa escola e estivesse por lá umas horas esta seria palavra que mais iria ouvir. cumprir programas. cumprir metas. cumprir regras. cumprir expectativas. cumprir avaliações para o ranking. cumprir horários. cumprir reuniões. cumprir. sejamos claros. cumprir. cumprir orientações, cumprir prazos, cumprir entregas de trabalhos, cumprir trabalhos de casa, cumprir calendários, cumprir objectivos. qualquer professor hoje ouve isto uma vez, pelo menos, num dia. ouve ou diz. ou as duas coisas. e tudo isto é um sintoma estranho do tempo que vivemos na escola. somos ordenados. comandados. cumpridores. todos. da direcção aos alunos. e se isto fosse um ciclo em cadeia eu penso quem fariam os alunos cumprir aquilo que lhes pedimos todos nós cumpridores? se eles fossem o fim da linha? se não podem fazer cumprir agora vão fazer no futuro. obrigar a cumprir ou serem cumpridores. nada há de mal em comprometer o compromisso de executar uma tarefa. o problema é o excesso. e a forma. e a avassaladora constância da palavra. e dos actos. estamos a fazer destes miúdos meros operários. operadores sem vontade. talvez, como nunca, as palavras tiveram um peso imenso. e esta vem carregada de um simbolismo imenso. troquemos a volta às palavras que habitam as escolas pois tal é urgente. mais do que urgente. preciso. necessário. presente. corremos o risco de alguém usar isto tudo em seu favor mais do que faz agora. josé régio escrevia que era o medo que guardava a vinha. mudem-se as palavras porque o tempo vai passar.

26/02/2014

||| de costas, para a parede...


||| ... do século dezanove herdámos algumas coisas curiosas. o castigo é uma delas. uma resposta imediata para um incumprimento de regras. um castigo. uma penalização. há na imediato deste procedimento disciplinar algo de complexo e intenso. é quase uma representação social do comportamento visto como cumprimento de procedimentos. qual o limite e razão do castigo. qual a sua forma. qual a sua dimensão. qual o seu objectivo. e enchemos os regulamentos das escolas com castigos. suspensão. repreensão. até se lembraram da multa. o pior é que transformaram o castigo num procedimento burocrático. retiram o imediatismo. demora uma semana, um mês, entre o incumprimento da regra e a aplicação da sanção. tudo se judiciou. tornou-se um processo de tribunal. na escola. e por mais estranho que possa parecer banalizou a palavra castigo associando-a a sanção ou pena. é de facto é pena que assim seja. porque quando se quebra uma regra pode não quebrar-se a ordem. e isso não é alvo de castigo. é algo de reprimenda. confundimos isso muitas vezes com professores. quando se quebra a ordem o castigo imediato faz sentido. se for, imediato. quase à rapidez da ordem quebrada ou não cumprida. e quando falo em castigo não falo em suspensão de direitos ou aplicação de alíneas de um regulamento. falo da mudança do statuos quo na relação entre eu enquanto professor e eles enquanto alunos. muda. transforma-se. e eles devem perceber isso. de forma mais tradicional [eu sou do tempo do ir para o fundo da sala virado para a parede - sendo o mais baixo do grau de castigo] até ao exercício criativo de abandonar a sala como faço quando isso acontece. com o castigo mudam as atitudes mais do que os actos. são disso reflexo. e isso foi o que se banalizou de tal forma que a palavra castigo perdeu, hoje na escola, o seu valor de mérito e razão no contexto de uma comunidade com regras que são para todos o pilar único da ordem que define, na essência, a razão da escola ser o local que é.

||| é sempre aluna de dezanove...


||| ... a patrícia tem cabelo corrido, castanho claro. olhos brilhantes. pequeninos. veste-se como as restantes amigas do seu clã. vai tomar o seu café sempre no intervalo da tarde. vi este ritual repetir-se durante um ano lectivo. foi, até hoje, a minha melhor aluna. e num tempo que se fala de tanta coisa vamos esquecendo aqueles que são bons. inventaram-se umas coisas com o título de mérito que se colocam numa parede por onde ninguém passa e lá ficam. o reconhecimento é sempre a certeza dita numa qualquer reunião: ah... se todos fossem como a patrícia. ah... quem me dera ter mais trinta patrícias e tudo corria bem. pois eu recordo a história desta miúda de outra forma. um dia, no final da aula, ela, aquela miúda de olhar brilhante chegou ao pé de mim e perguntou se podia ficar um pouco no fim da aula a falar comigo. tenho esse hábito desde sempre por achar que os intervalos são para os alunos. é como a ideia absurda dos padres terem férias. mas pronto, adiante. lá fiquei. sabe professor, o meu pai ficou desempregado. a minha mãe está a suportar as despesas e eu quero ajudar deixando de ter explicações. ouvi tudo com atenção. a ideia dela. a forma. a razão. no final rematou: professor só lhe queria pedir uma coisa. arranja uma hora para me ensinar a estudar? é que nunca ninguém me ensinou. e assim podia melhorar e fazer mais sozinha. passei, todas as quartas-feiras durante um mês, naquela hora que ela me pediu. percebi que ela era aprendiz por conta própria. que estudava com as suas regras. que nunca ninguém lhe tinha ensinado isso nem tirado esse tempo para ela. no final dos nossos encontros disse-lhe: sabes, fui eu que aprendi mais contigo do que tu comigo. porque por muito bom que seja um aluno é um aluno. não posso eu, como professor, dar como adquirido aquilo que é minha função ensinar. a todos. é que eu parti do pressuposto que tu tinhas todas as competências, capacidades e técnicas. e esqueci-me que era uma aluna. porque o bom aluno é sempre aquele de quem esperamos mais sem ter cuidado no que ele ou ela podem ainda precisar. ela agradeceu. hoje soube, porque me pediu amizade numa rede social, que é médica veterinária. queria ser professora. fiquei feliz. e feliz pelo desvio no caminho dela. está melhor. está bem. agradeceu-me a regra de tirar notas nos cantos das páginas. disse que ainda usa para registo. e eu agradeci-lhe o que aprendi com ela. que o nosso melhor aluno é também um miúdo. e precisa de tudo aquilo que os outros precisam. por uma razão ou por outra. obrigado por isso.

25/02/2014

||| já não sei escrever com caneta...


||| ... só há um campo onde me faz mesmo muita confusão, enquanto professor que se perde muitas vezes pelos espaços comuns da escola, no uso e existência da tecnologia no contexto escolar. falo do tempo comum. posto em comum. passado em comum. e na relação entre o espaço e a construção social da comunidade enquanto representação de si mesma em acção. passo a explicar. olho para a tecnologia digital com o mesmo fascínio que olho para uma caneta. são ferramentas. no meu trabalho uso-as e acho-as uma conquista humana como tantas outras. facilita, em algumas coisas ajuda, noutras ganhou lugar central e ainda noutras tem a mesma função que qualquer outra ferramenta. o que me assusta não é a sua utilização em contexto educativo. é mesmo fora desse contexto. é o saber que os meus alunos não se "desligam". isto pode parecer estranho. mas acho mesmo que devia haver uma política de "desligamento" em certos períodos para os miúdos. porquê? porque a ausência de comunicação é tão importante como a constante comunicação. para que pudesse fazer o mesmo sem esse estar bem onde não estão. eu sei que é um exercício impossível. absurdo até. mas vou desafiar um dia os meus alunos para viverem quarenta e oito horas sem telemóvel, internet ou qualquer comunicação digital? impossível? eu depois conto aqui se será assim tão impossível e qual a reacção perante esse mundo "desligado". talvez seja uma loucura. mas acho que será um desafio curioso para eles verem como fazia eu que combinava coisas no tempo em que não havia telemóvel...

||| da poética do [bom/mau] gosto...


||| ... ó professor como é que sabe isso? não é de história? a pergunta era simples. qual era o símbolo químico da prata. ag. ó professor, desculpe, mas aprendeu isso em história? não, em química. então não estou a perceber. e depois disso foi uma pergunta sobre luís de stau monteiro. e estive um pouco a falar de teatro. e das pancadas de molière  que eles já nem sabiam quem era. e de matemática. e dos pitagóricos. e da história destes com as favas. foi ali uma aula sobre tudo e sobre nada. mas o que me assusta é esta cultura da ignorância que grassa pelas escolas. e sei que estou a ser bruto nas palavras. se não está no programa, se não está nos manuais, se não é obrigatório não se ensina. e andamos todos a mando de uma pseudo-ordem que diz que posso ensinar isto mas não posso ensinar aquilo. e quando falo da arca de fernando pessoa que esperava que alguém da área lhes tivesse falado não sabem o que é... é uma cultura oculta da ignorância. e que medo que isso cria em mim. quase como falar de picasso e não das mulheres [e da única que "lhe sobreviveu"] ou de einstein sem falar da bomba. ou de darwin sem falar da viagem de um "aluno desencantado". ou coisas concretas para além do óbvio. é uma absoluta e pura cultura da ignorância. quer eu queira chamar-lhe assim ou não... valha-nos quem o combate e vai um pouco mais além pois sem isso a terra seria quadrada...

24/02/2014

||| tenho medo, posso mesmo...


||| ... faz alguns meses e encontrei os meus alunos num sábado ao sair do comboio. eram três. iam fazer qualquer coisa que nem me lembro. duas raparigas e um rapaz. a elas dei dois beijos a cada uma. a ele um daqueles "passou-bem" modernos de polegar em riste. e no início de uma aula uma aluna chegou ao pé de mim e perguntou [muito a medo] se me podia dar um abraço. e deu. e dei. assim como quando ao chegar à escola lá dei mais um abraço a um aluno e fomos numa conversa sobre um filme visto no fim de semana até entrarmos nos corredores da escola. e pensei que estes gestos simples assustam-nos hoje. em quem nos tornámos para que isso fosse uma realidade? que cinzenta esta alegria [modernamente felicidade] que negamos uns aos outros neste tempo em que, cada vez mais, precisamos uns dos outros. não é por aí que vem o desrespeito ou a falta de autoridade. é precisamente por ai que começa. estamos cheios de alegria cinzenta nas escolas. porque nos afastámos uns dos outros. porque somos cada vez menos pessoas e cada vez mais estamos de passagem. porque tudo o que precisamos verdadeiramente nos parece cada vez mais ridículo ou "comentável" aos olhos dos outros que sentem a mesma falta, das mesmas coisas, do que nós. e não fazemos. não dizemos. somos procuradores da distância segura. da conformidade. do asséptico perfeito formato da relação humana. e com isto perdemos forma. força. cor. transportamos o cinzento no sorriso que pedidomos e desejamos ou falsamente apresentamos como conquista de futuro. comecemos por um simples e verdadeiro "bom-dia" e recuperemos a alegria colorida de seremos humanos e a escola terá, no seu lugar, neste lugar que agora ocupamos, mais pessoas e menos passageiros sem identidade. não somos utilizadores, utentes ou funcionários. somos. e ponto final parágrafo.

||| e como é que eu vou explicar isto...


||| ... quando me lançam um desafio impossível digo logo que sim. esta semana tenho um desses. pediram-me para estar presente e conversar sobre literatura e revolução. ora bem... tudo impossível. sou professor. a única pouca coisa que sei é de história e como digo ao meu médico se ele sabe tanto de medicina como eu sei de história é melhor eu fugir. não sou de literatura. os miúdos cada vez vão lendo menos. não participei em nenhuma revolução. gostava de participar, mas não participei. pior... a noção de revolução hoje para os miúdos na escola não sei qual será. por tudo isto, missão impossível. logo... disse que sim. então como falar de literatura e revolução? por aí mesmo. porque hoje a palavra dita, escrita, pensada não tem [ou tem] força revolucionária. e como tudo isto faz sentido depois de quarenta anos de "liberdade". se era de liberdade que se escrevia porque é que não é de "liberdade" que se lê? porque é uma conquista? ou porque foi perdida em favor de outras "liberdades" que ainda não estão conquistadas. como professor faz-me sempre imensamente bem estes desafios impossíveis. tenho que estudar. ir ver. ler. trocar ideias com colegas. e isso é o que faz um professor. devia fazer sempre. para cada aula pensada como um momento impossível que ganha forma. e se formos a ver bem é mesmo isso. cada aula um momento impossível que ganha vida. pode ser sobre outra coisa para além desta ligação que vou ter que conseguir fazer sobre coisas que não dizem já o que podiam dizer a uma geração que ainda está a ser construída. mas diz à escola. lugar de palavra e de evolução. lugar de palavras e revoluções. assim seja... possível ou impossível.

20/02/2014

||| claro, obscuro, novo, velhíssimo, obsceno...


||| ... tenho o mau hábito de me sentar em cima das mesas. e conversar com os meus alunos dessa posição. não sei como o adquiri pois a minha altura não acompanha tais voos mais ou menos arrojados. estava eu assim, naquela posição que me é natural e já nem me lembro bem do que disse aquele aluno. deu-me um daqueles ataques de riso imparáveis. ria eu e riam eles. soube bem. quando conseguimos parar regressámos à seriedade que a sala de aula exige. há nestas pequenas fraquezas humanas tanto de belo como de louco. e nada mais importou. só uma boa gargalhada. é como o humor que entra na sala de aula cinzenta e varre tudo à sua frente. ou o sorriso. aquele que transforma o dia em qualquer coisa que podemos recordar. o pior é que andamos esquecidos disto...

||| no man left behind...


carta aberta a um aluno
ou o exercício surreal de um professor presente

||| ... sabes, ontem um homem deixou o seu país. de mala na mão. foi de avião para o brasil. estava quase na idade de se reformar. era pai. era pai de três filhos. deixou-os cá. e foi. não, não era conhecido. era só um homem como outro qualquer. naquele dia, ontem, duzentas e setenta e três pessoas deixaram este nosso país. nós ficámos. tu, meu aluno e eu, teu professor. estamos por cá. e o que vamos fazer? vamos continuar. tu vais construir o futuro. eu vou ficar por aqui quando este ano lectivo terminar. novos alunos como tu tomarão o teu lugar se eu tiver sorte. se não tiver sorte ficarei sem trabalho. é por isso que não tenho qualquer argumento economicamente válido para as vezes que me perguntas a razão de ser importante estudar. não estou aqui para te ensinar para ires encontrar trabalho quando a escola acabar para ti enquanto percurso de crescimento. estou aqui para te ensinar a ser. só isso. para te mostrar as coisas que os outros antes de nós pensaram, descobriram, encontraram e que nos permitem ser como somos hoje. e este país que é nosso precisa que eu e tu sejamos mais futuro. mais amanhã. muitos partem. outros ficam e vivem com todas as dificuldades destes tempos estranhos. a vida é difícil. aqui na escola também. mas tu e eu podemos mudar as coisas durante o tempo em que estamos juntos. é que na nossa sala de aula o tempo é nosso e nele cabem todos os lugares e todas as coisas do mundo. só precisas aceitar que queres entrar nesta viagem que se vai repetir todas as semanas em cada aula. e não precisamos de coisas e mais coisas. precisamos de nós. de estar presentes. de sermos inteiros. de confiar um no outro. eu no que procuro sempre ser e saber mais para te dar e tu na vontade imensa de descobrir o mundo das coisas ainda por saber. e quando tudo te faltar e todos te falharem eu estarei cá para te mostrar que há quem esteja sempre cá para um abraço se não tiver mais para te poder ajudar. sabes, é que podem tirar-nos tudo menos o que somos e sabemos. por isso não abandones a escola nem desistas de aprender mais. não para teres um trabalho melhor ou para saberes na ponta da língua aquilo que te pedem para repetires. para pensares. para que, pelo pensamento, pelo conhecimento e pela imaginação construas mundos. mundos inteiros.  e um deles seja o teu. aquele pelo que vais lutar o resto da tua vida. no qual eu e outros como eu vamos querer viver. um melhor do que este. um em que um homem não tenha que sair para viver. um no qual cada homem fique para construir. e sabes, que seja esse o nosso tempo, este tempo em que estamos juntos. nós que estamos cá para desenhar o futuro. tu meu aluno, eu teu professor. eu não te deixarei para trás. mesmo que me deixem a mim. porque eu e tu somos pessoas. nós somos e existimos. para além de hoje. rumo ao amanhã que vamos aprender juntos.

um abraço amigo.
o teu professor

19/02/2014

||| e no entanto eles também rirem...


||| ... ó professor por aqui? pois... eu sou professor mas também sou uma pessoa. e ando de comboio. e almoço. ah... durmo é pendurado de cabeça para baixo e acordo como o drácula. abro os olhos e começo a pensar em aulas. e lá vem uma gargalhada. ó professor, só você... pois é. sempre achei fascinante esta quase impossibilidade que os alunos conseguem ter de não nos ver como pessoas. só como professores. estes remates são comuns quando nos encontram fora do nosso contexto. ah... o professor por aqui? pois. eu também almoço ou faço compras. e acho isto uma delícia. este lugar de imaginário onde os alunos me colocam enquanto professor. como se fosse impossível que ser professor fosse compatível com ser pessoa. também eu fui assim com os meus professores. até porque há um grau de intimidade [eu sei, o termo é controverso] nesta relação. falo neste conceito porque há uma relação única entre o professor e os seus alunos. de algo que se passa na sala e na escola que é uma reserva de realidade só conhecida por estes e não transponível para outros lugares ou contextos. é nesse sentido. e isso cria entre o professor e os seus alunos um linha única de confiança que se torna importante nestes momentos. principalmente quando os educadores os acompanham. pais, avós ou amigos. outras pessoas. ele porta-se bem? não respondo. isso é para ser falado na escola. não no meio do corredor dos legumes num supermercado. se eu fosse médico não era no meio de produtos de limpeza que ia falar das análises. e isso é a reserva do profissionalismo que algumas vezes falta. há coisas em que o professor é profissional e coisas em que é pessoa. e essa linha existe. curiosa, imensa, divertida até, mas existe. e quando é quebrada perde-se a essência do que é ser professor. e há uma beleza nisso que supera todas as outras coisas. até porque estes momentos são, quase sempre, acompanhados de um sorriso...

||| era a tarde mais longa de todas as tardes...


||| ... chovia. saí do comboio com a ideia que a minha aula seria sobre património. arquitectura e movimento. teria mais um dia daqueles cheios de coisas. coisas porque são mesmo coisas. desliguei de tudo. concentrei-me. dei a primeira aula da manhã. passou a manhã. tinha uma hora para almoçar. fui, em passos largos até ao local que queria que os meus alunos fossem visitar. falei com uma senhora simpática que chamou um senhor a quem chamava de chefe. discuti preços. dois euros por aluno. consegui por um euro. vinte e cinco alunos, vinte e cinco euros. fui a uma caixa multibanco. levantei trinta euros. pensei que não fumo. não bebo. nem sequer mastigo pastilhas elásticas. eram vinte e cinco euros que tinha que poupar no mês seguinte para não tirar aos meus. deixaria de estacionar o carro no estacionamento pago. e durante um mês não compraria uma revista ou um jornal. eram vinte e cinco euros. comi qualquer coisa rápida. há nas cidades locais onde se come sentado por cinco euros e pouco. é só procurar. fui para a aula. disse: hoje vamos até ali. vamos descobrir um monumento da nossa cidade. arrumem tudo. deixem tudo na sala que ainda cá voltamos. em dez minutos estávamos no local. a senhora simpática fez o remate comum: se no meu tempo tivesse professores assim... e lá estivemos cerca de uma hora a descobrir o local. terminada a visita o regresso à sala. o cansaço em mim era grande. estava preocupado com as coisas que ainda faltavam fazer num dia que ainda não tinha terminado. nem por sombras. e uma aluna, no final da aula que foi essa descoberta de um lugar disse-me: obrigado professor por esta oportunidade de ver uma coisa que não conhecia. acho que nem lhe disse nada. mas a frase ficou-me na cabeça. porquê? porque nesse dia tinha trabalhos para ver e estava focado em achar que o importante era saber se o aluno x, y ou z tinham subido dos cinquenta para sessenta valores em cem. e aquele obrigado ficou perdido. e hoje estamos assim. já não reparamos nestas pequenas conquistas. nestes "obrigado" que tanto revelam. nestes gestos que fazem de nós professores. bastava-me responder: nada a agradecer. fico só feliz por teres descoberto um pouco mais da tua cidade. obrigado eu. mas não disse. o dia tinha-se tornado maior do eu. tinha sido vencido pela desumanização. na aula seguinte disse-lhe. recuperei um pouco. mas perdi o tempo. senti-me perdido. eu sou professor de momentos. não de coisas. e isso fez-me pensar no que estamos a deixar de valorizar em cada conquista que deixámos de ver para ver "evoluções" que são só coisas em folhas de papel aos quadrados. e eles, eles pessoas, não nos podem passar ao lado.

18/02/2014

||| são números senhor, são números...


||| ... as rosas da rainha santa seriam agora folhas de estatísticas adulteradas do instituto nacional de estatística mostrando o desaparecimento de um número considerável de desempregados. porque isto dos números está a tornar-se uma coisa para além do normal. algo dos deuses. porque é preciso subir no ranking. porque em vez de uma folha de excel por ano com resultados são precisas trinta e seis, uma por semana durante nove meses. porque a somar a isso se somam semanas de reuniões para preencher dezenas/centenas de papeis com cruzinhas. porque já ninguém aguenta a ideia de que uma escola é boa porque os seus alunos cumprem com rigor um exame no final do tempo que lhes é dedicado para reproduzirem o que passam um ano, desde a primeira aula, a treinar. e mesmo que tenham uma média de doze esta tem que subir para quinze nem que seja preciso aulas infinitas, explicações e mais e mais e mais e mais e mais horas, estratégias e coisas e mais coisas e mais coisas. e o professor passa a operário e os alunos a operadores. e se os números não sobem a culpa é do professor. e se os alunos não atingem aquilo que faz subir o ranking lá se vai o crédito do professor enquanto bom professor [ou excelente como agora querem dizer que é possível ser]. e depois avalia-se o professor. assiste-se às suas aulas. criam-se relatórios para serem lidos. evidências. quantas porcas foram apertadas no espaço de uma hora. quando alunos subiram um ponto na avaliação intermédia. e contamos tudo. tudo menos contar uns com os outros. o trabalho do operário no seu posto de trabalho é cada vez mais só. mais isolado. porque os outros competem connosco por uma avaliação. por um posto de trabalho. e se não estivesse a falar de escola até parecia que estava a falar de uma fábrica nos meados de mil e novecentos num país em revolução industrial. desculpem se acho que algo de muito errado existe neste modelo. desculpem se me recuso a aceitar que assim seja. desculpem se faço parte daqueles que na estatística ficam fora do limite da curva de gauss. desculpem por dar cabo das contas. é que eu sou. e eu existo. e a escola para mim não é uma fábrica. e nunca será. desculpem qualquer coisinha. mas a verdade é que sou só um. e assim podem sempre justificar-me como erro estatístico. já é qualquer coisa. não importa. importa só que esta não é a minha escola. e não vai ser enquanto eu for professor.

||| vamos esconder o futuro...


aviso: este texto é politicamente incorrecto.

||| ... sou um defensor da escola pública. não do modelo que agora temos. mas da escola enquanto bem público. enquanto conquista social. atravesso muitas vezes o país de norte para sul e reparo que há sempre uma placa a indicar: escolas. e isso é uma conquista universal. o direito a aprender. e da escola privada também. porque é escola. e só isso é, em si mesmo uma conquista. novamente. uma conquista. não gosto do modelo social em que vivemos. não sou liberal nem aceito o capitalismo. isto para que fique tudo claro antes do que vou dizer. sou um evolucionista. acredito que a ciências nasceu com darwin [e já começo a provocar]. sou um atento observador da sociedade. gosto da sociologia como modelo explicativo do que hoje somos enquanto todo e da antropologia enquanto análise das partes [e volto a provocar]. e com isto digo que vejo o todo e as partes. e tenho, nos últimos tempos enquanto professor estado em contacto com ambas as realidades. o todo e a parte. e dentro da parte a margem social mais desfavorecida e mais favorecida. sim, porque na sociedade actual existem ambas. por muito que sejamos defensores da igualdade e da universalidade da educação há estas duas realidades dentro do sistema educativo. e tal como na sociedade alastram as desigualdades. não é uma análise é uma visão sobre a realidade. e o que me aterroriza é ver que futuro estamos a roubar a ambos. e hoje apetece-me falar desses favorecidos que oferecem à educação dos seus educandos um universo paralelo e fechado dentro de si mesmo para a construção e manutenção da elite. eu avisei que ia ser incorrecto. e o que vejo dentro dessas paredes fechadas é o resultado do que hoje fora das portas da escola acontece. importa o ranking [e falarei disso noutro texto já a seguir] e o resultado. ainda ontem uma colega me dizia que as artes iam receber um corte de quinze minutos no tempo de uma hora por semana que lhes era dedicado em detrimento de um aumento de horas para português e matemática. isto em crianças de quatro e cinco anos. e o que me aterroriza é que ninguém veja para além do agora. que este modelo está moribundo. que mais tarde ou mais cedo alguém terá a coragem de mudar este sistema. ou não. e ambos os cenários são assustadores. se não mudar estes miúdos serão adultos sem a visão global da construção humana. da ciência à arte, do saber ao sentir. e se mudar tudo, estarão perante o futuro sem ferramentas para o pensarem ou construírem para além do que as regras conseguem edificar [as que lhes foram ensinadas em português e matemática]. e penso nisto com a visão mais politicamente correcta que existe. que um dia estes miúdos serão aqueles que dizem que os números são mais importantes do que as pessoas e nisso tudo está explicado. não pode ser justificado. mas explicações vão conseguir arranjar. e quando olho para tudo isto só espero que eu tenha a força, como professor, para marcar a diferença. para lutar contra tudo isto. mas isso sou eu. hoje, feito professor incorrecto mais do que imperfeito. porque é preciso ver. olhar e ver no que estamos a transformar cada uma das escolas. é mesmo preciso parar e ver.

17/02/2014

||| nunca tinha visto isto...


||| ... às vezes um aluno é capaz de nos surpreender. muitas vezes. há uns tempos levei para uma aula um pedaço de aço. e um pedaço de ferro. e um pedaço de madeira. e um pedaço de barro. era uma aula sobre arquitectura do ferro. isto tudo para explicar uma coisa simples. que com um pedaço de ferro se mudou a forma de construir mas não as regras de construção porque a física não mudou nem as leis naturais que governam os equilíbrios dos corpos em suspensão. e um aluno no meio da aula perguntou-me se eu achava bela a ponte que lhe estava a mostrar. referi que não. que a minha estética pende mais para o lado das pontes romanas. mas que encontrar harmonia na construção. e esse foi o problema. harmonia. o que era isso. e fiquei verdadeiramente assustado quando ao terminar a conversa fiquei com a certeza que aqueles miúdos não poderiam estar ou ser o que era encontrar essa harmonia na sua vida. não sabiam o que era. havia-lhes sido negado essa condição de procura. tal como a alegria. e falo muito disto recentemente. porque há um lugar cinzento e triste que lhes tolda a visão. é a procura pela felicidade. como se isso fosse um destino em si mesmo. quero ser feliz, dizem. eu começo por dizer que o mais simples é começarem por serem alegres. não sabem o que isso é. pensam e associam ao ridículo. ao riso. e tal como a harmonia ficam em lugares estranhos do pensamento quando se confrontam com isto de estar alegre. e isso deixa-me muitas vezes no lugar de hércules. com mais do que doze trabalhos. roubar a miúdos o desejo de harmonia e alegria é tirar da sua vida o que pode um dia ser o seu suporte e a sua essência. e isso não faço. por muito que me digam que estou errado colocar cada um destes miúdos em confronto com as mais nobres procuras do ser humanos desde a sua existência não é dizer-lhes para serem felizes. é dizer-lhes, mostrar-lhes que tudo começa pela procura da harmonia e da não negação da alegria. talvez um dia eles me entendam.

||| vai para o raio que te parta...


||| ... uma má-educação. uma falta de educação. e era isto. uma discussão em torno disto. os miúdos estão cada vez mais mal educados. é só palavrões e comportamentos desadequados. e falta de respeito. enquanto ouvia o desabafo pensava. são tudo coisas diferentes. uma má-educação não é falta de educação. é uma educação má. aos nossos olhos. a falta é, infelizmente, cada vez mais recorrente. falta é ausência. e isso, devido ao modelo social em que vivemos, é uma realidade. cada vez menos os educadores estão presentes o tempo suficiente para dar educação. a escola, com a função de ensinar e assoberbada de funções também não tem esse tempo. o que resta é o "entre pares". e isso é, em si mesmo, ausência de educação. o resto é a linguagem. o domínio da palavra. há palavras mais ofensivas do que palavrões mas os miúdos desconhecem o sentido das palavras como pedras. e ainda bem. louvemos nisso a falta de educação. quando as usam dessa forma é fruto de uma má-educação. de uma educação para a violência ou para a ausência de princípios. e isso é mais difícil de tornear do que uma ausência de princípios educativos. os comportamentos são, muitas vezes imitação. é passear um pouco numa rua e ver que comportamentos recebem os miúdos hoje como exemplo. numa sociedade cada vez mais desligada do humano tudo isso se transforma em acções. e como contornar isto? só sei uma forma, como professor, que a uso há anos. ou melhor, desde que me lembro de ser professor. pelo exemplo. nós. professores. seremos o exemplo de que pode tudo ser diferente do que eles vivem no dia-a-dia. não sei se funciona. nem sei se é relevante. mas eu vou tentando, com eles, mostrar isso. que há outros mundos. outras formas. outros modos. pode ser que fique lá qualquer coisa.

14/02/2014

||| uma aula para falar do belo e do feio...


||| ... pedagogia: a construção de um ideal de beleza por definição da oposição do feio é um registo de época e contexto. esta aula é um exercício desses dois factores: o enquadramento histórico e o enquadramento estético.

||| ... metodologia: o professor pede numa aula anterior que os alunos levem uma imagem de alguém que achem belo/a. no início da aula o professor escreve no quadro ou projecta a frase: «se um visitante vindo do espaço entrasse numa galeria de arte contemporânea e visse rostos femininos pintados por picasso e ouvisse os visitantes a julgá-los como belos, poderia conceber a ideia errada, de que, na realidade quotidiana, os homens do nosso tempo achavam belas e desejáveis criaturas femininas com rostos semelhantes aos representados pelo pintor.». aos alunos é pedido então que, com as imagens que trouxeram transformem apenas com caneta aquela imagem que acham bela numa imagem feia. devem desenhar e transformar a imagem de forma a que esta perca a beleza e ganhe uma dimensão oposta. o professor pede depois aos alunos para guardarem esses registos até ao final da aula. projecta depois ou entrega aos alunos duas imagens: a mulher a chorar, de picasso [aqui] e esopo, de velásquez [aqui]. divide depois a turma em grupos e a cada grupo entrega uma cartolina preta e um pacote de guardanapos de papel. pode ainda entregar cola [embora eu não tenha experimentado pois o objectivo passa também pelo efémero da representação conseguida]. os alunos são desafiados a recriar, com estes materiais, uma das duas imagens ou fundir as duas imagens de forma a conseguir uma nova criação que apontem ou registem como bela. no final da aula os alunos são convidados a criar uma exposição que pode ser colocada na parede e chão com o objectivo de debater a ideia da beleza e do feio nos diferentes tempos e épocas tendo como referência o ideia de beleza e do feio emanado do presente. o debate começa pela discussão do que acharia um visitante vindo de outros planetas sobre aquela exposição criada. o que para ele poderia ser belo ou feio.

||| ... esta aula tem como tema: a leitura e construção de um conceito de beleza e de fealdade, assim como, a construção e desconstrução dos pré-conceitos e ideias sobre estas duas noções estéticas.

||| os sonhos são a nossa liberdade mais espantosa...


||| ... a frase do título é de baptista-bastos. o que andas a ler? as metas curriculares. estou a fazer uma formação. no meu tempo eram objectivos. agora são metas. aposto que daqui a um tempo serão "atingimentos" [com a fúria que andam para inventar palavras no seu inconseguimento de saber o significado das que existem]. e vamos de umas invenções para outras. saturando a escola de inutilidades. de inutilidade. o que falta na escola são tertúlias. não, não enlouqueci mais um pouco. são mesmo. tempo para falar de ciência. do que andamos a ler que não sejam metas. do museu visto. da peça de teatro a que fomos. do passeio dado no domingo passado onde estivemos. do workshop feito e do livro que estamos a escrever ou com ideia de o fazer. e com isto dar aulas. era bom ouvir numa sala de aula: a propósito disso ainda agora mesmo falei com a vossa professora de português que me falou num livro que fala disso. este é só um exemplo. falta essa cultura na escola. somos cada vez mais todos pessoas que vão ali cumprir uma função. e a ciência, o que sabemos ou aprendemos, nós professores, entra e sai os portões da escola connosco num silêncio ensurdecedor para um espaço que devia ser uma comunidade. somos cercados de falta de tempo [não o reclamamos] e de coisas inuteis [das quais não nos desinteressamos] e dos problemas [com os alunos, com a escola, com o sistema, dos quais não conseguimos ver para além do aqui e do agora]. é por isso que faltam tertúlias. conversas. trocas. é por isso que a grande mudança na escola tem que ser essa. dar tempo ao conhecimento para ser a centralidade do pensamento de uma comunidade. e acabar-se com tudo o resto que alguém inventa para alimentar qualquer coisa que já nem sei bem o que é. chamo-lhe o mostrengo. já nem sistema é. e se ninguém disser basta. se ninguém reclamar este lugar e tempo a escola será só um espaço onde todos vamos e de onde todos saímos no final do dia: iguais, todos os dias, iguais. reclamemos o direito à conversa e às ideias. e ao tempo para isso longe de qualquer nova inutilidade.

||| parecem bandos de pardais à solta...


||| ... ó professor, fogo, tipo... nas suas aulas sinto-me tipo uma criança. foi uma confidência da filipa. tem dezasseis anos. ou dezassete. ou cinco, naquela aula ou naquele momento. esta coisa de inventarem a adolescência é recente expliquei. sentei-me um bocadinho no corredor com ela e mais três alunos. sabem que nem sempre as crianças foram tidas como "pessoas". eram crianças. e ao contrário das mulheres os seus direitos não foram conquistados pela luta. foram-lhes cedidos. reconhecidos. pelos adultos. o direito a brincar é um deles. mas isso tudo é coisa nova. como a adolescência. e o conflito de gerações. tudo novo. sendo velho. ou melhor, passou a ser [re]conhecido pela ciência e pela sociedade há pouco tempo. parece que sempre foi assim. mas não foi. e sabem o que me assusta mais? é que agora parece que vocês têm a obrigação de crescer mais depressa. repetidamente vos dizemos para serem responsáveis. para crescerem que já não são crianças. mas é vosso direito ser criança. e vocês não o reclamam. sabem que havia uma palavra para descrever os rapazes e as raparigas no meu tempo [e sou do tempo do gira-discos - o que é isso?]. eram os putos. e até ary dos santos lhes dedicou uma letra de uma música ou um poema se lhe quiserem chamar assim [na próxima aula levo para lerem]. dizia que nas ruas, ao fim do dia, pareciam bandos de pardais. soltos. agora já nada disso parece existir [nem os pardais. já parece que ninguém os vê]. mas está em vocês. antes de crescerem dediquem-se ao belo exercício de serem miúdos. reclamem tempo aos vossos educadores e professores. tempo para brincar. para poderem fazer disparates que não aquelas aberrações que hoje se fala em alguns casos. aqueles disparates bons. como sujarem-se e saltarem para as poças. ou correrem. ou qualquer coisa que vos apeteça. sabem porque sou assim com este ar de louco? é que reclamei para mim o direito de ser sempre criança. de fazer essas coisas. nas minhas aulas não vos roubarei a alegria. hoje fala-se muito de felicidade e muito pouco de alegria. eu não vos roubo a alegria. dou-vos a alegria de volta. é só esse o truque. e pronto... acabou o tempo. passou o intervalo. e lá foram eles. espero que fazer algum disparate a brincar... ou muito a sério...

13/02/2014

||| um homem suspenso no poder...


||| ... dizem que um dia viram alexandre, o grande, sentado no trono a pensar. dizem que apenas disse uma frase. o poder absoluto é o exercício máximo da solidão. acho que ninguém o viu a pensar sozinho e não disse isto. mas fica bem este exercício de imaginação. serve esta ideia somente para ilustrar uma das questões contra as quais mais me tenho batido. eu sei que ninguém liga a isto. mas eu ligo. a mim incomoda-me. a mim importa. sou do tempo da escola ser um espaço de democracia. não sou velho mas lembro-me disso. quando entrava numa escola nova para dar aulas [pois sempre fui professor em regime jurídico de trabalho de contratação] lá ia eu ser apresentado a três ou quatro professores como eu. era o conselho executivo. vamos lá desconstruir isto. eram três ou quatro. um deles era o presidente do conselho executivo e os outros eram delegados. a quem o presidente delegava competências. as decisões eram tomadas em conselho. e voltamos às palavras: conselho é a primeira. do latim consilĭum. do encontro de pessoas para a discussão/opinião. segunda palavra: executivo: do latim exsequi. realização ou cumprimento de algo. e fazia todo o sentido. um grupo de professores de uma escola que a coordenavam juntando esforços para a realização da escola como um todo. claro que nem sempre funcionava. as coisas da democracia são assim. tirando todos os outros modelos fica este imperfeito. mas agora isso já é passado. temos um/a director/a. alguém que traça um rumo ou administra. fui e sou dos que acha que esta foi a mudança mais substancial dos últimos anos. o que mudou não foi um nome porque a função é similar. foi a lógica de poder. a individualização e o rumo. a gestão para administração. e que importa isto no meio de tanta coisa? é que acho imensamente curioso que a escola tenha sido dos primeiros organismos do estado a "optar" por este modelo. se a escola é reflexo ou antecipação do todo social temos então a resposta ao caminho que temos pela frente. e é isso que me assusta. o modelo. o que fica em cada um de nós. que é mais fácil ter alguém no comando do rumo do que definir democraticamente o caminho. é uma representação. a dependência da sorte de ter uma pessoa com certas características para uma função com este peso é uma realidade. tive sorte ao longo destes últimos anos. mas não importa eu como professor. importa o modelo que a escola apresente como representação social de futuro. e isso sim é uma realidade visivelmente estranha passados quarenta anos de um vinte e cinco de abril ainda por cumprir e com uma europa a mostrar que já se começa a esquecer da história dos últimos cinquenta anos. um dia para explicar a uma turma do décimo segundo ano o que tinha sido a comuna de paris fiz com os alunos uma ocupação de um conselho executivo. barricámos o espaço e lá ficámos durante uma manhã a tomar conta da escola. foi há uns bons anos. se o fizesse hoje certamente apareceria na tvi com direito a corpo de intervenção e muito mais do que isso...

||| parecer loucos mas sermos espertos...


||| ... ainda me lembro do outro e das pipocas. nem que fosse a vender pipocas conseguia pagar as propinas e se assim não fosse era a inutilidade que vencia a pessoa. o que vi, há uns bons anos era este caminho que estamos a fazer. chamam-lhe liberalismo. juntam empreendorismo até mais não. falam de um estado pequeno. reduzido. mínimo. eu sou um caminhante no meu tempo que olha para a revolução francesa como um instrumento de iluminação histórica. e a construção de um estado providência como uma conquista e não como um custo. não o quero mínimo. porquê? porque sou professor. e nos tempos que correm [chamados de ajustamento e ainda mais modernamente de recalibragem] a escola é o último reduto, para os miúdos, do que que resta desse estado providência humanista. pode parecer estranho mas não é. muitas vezes nos perguntamos em reuniões ou conversas de corredor pelo rui ou pela joana. os pais estão desempregados. ele ou ela andam tristes. os olhos postos sobre a mesa de trabalho na sala de aula revelam, de tempos a tempos, aquelas discussões tidas em cada que o rosto não consegue esconder. ou a fome. e pode parecer estranha esta palavra mas ela existe. eu sei que cada caso é um caso. cada escola é uma escola. há elites, há comunidades de interajuda. mas também há cidades. imensas. grandes demais para os miúdos que são só miúdos. alunos como tenho e tive cujos pais trabalham por turnos e é numa corrida breve numa fuga da escola para uma aula na rua que vão só ali dar um beijo à minha mãe que hoje está a trabalhar até à noite. sempre foi assim dirão alguns. o operariado é preciso para a sociedade funcionar. talvez. mas quem está na escola sabe que todos os dias [e cada vez mais] a escola é mesmo o último reduto não tecnocrata do estado que cuida. que tem cuidado. que se preocupa. porque os professores são elementos de uma sociedade. do estado por serem seus funcionários. e quando chega a hora de resolver e encontrar aquela solução para aquele miúdo não deixar de ir numa visita de estudo porque não há lá por casa mais dez euros vence o humanismo à condição de crise moral em que uma sociedade que não é uma coisa nem outra vive neste momento. e esse esforço, essa dedicação, esse lugar de humanismo na escola faz dela o único lugar onde cada pessoa vale muito mais do que um número ou uma situação. eles são miúdos. nós, professores, somos os seus últimos lugares de abrigo. tantas vezes. e nem damos por isso porque afinal de contas somos só professores.


12/02/2014

||| do discurso do método da origem das ideias...


e eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil...

||| ... não gosto do filme mas gosto desta cena. acho robin williams um dos actores mais inteligentes do nosso tempo. não pelos filmes que tem feito mas pela capacidade de comunicar expressões que poucos conseguem ter. e de tempos a tempos regresso a esta cena pela dimensão que tem. já uma vez aqui falei da minha incapacidade para dar "sermões" aos meus alunos. hoje, por me parecer e aparecer a necessidade de responder com a experiência a um aluno que me pediu uma opinião repensei tudo isto. que legitimidade tem a minha experiência para a minha função enquanto professor? sim, legitimidade. de fundamento. de razão. eu que errei tantas vezes. eu que nem sempre consigo honrar o que tento fazer. e que moral terei eu para fazer julgamentos de valor sobre comportamentos ou situações. disso já desisti. dos julgamentos. então que validade encontro na experiência quando a tomo e uso como conhecimento para os meus alunos? é que eu posso ter imensa experiência em apertar parafusos durante vinte anos. mas posso ter apertado o parafuso errado, de forma errada, durante vinte anos. é que quando lhes falo do saber de experiência feito faço-o sempre com uma revisão. a revisão da observação sobre a experiência. a racionalização da coisa passada. e isso importa. na razão proporcional ao que quero revelar em cada conversa com os meus alunos. é que lhes digo que fiz isto ou aquilo mas acrescento: e falhei. ou acrescento: e tive sucesso. e falo das razões porque falhei. e falo dos fundamentos do sucesso. assim como da experiência. ver a um quadro de picasso ao vivo não é a mesma coisa do que o ver numa apresentação digital em sala de aula. não é. faltam os sons das pessoas. o frio da sala do museu. os comentários. a grandeza ou estranheza do espaço e do desenho. e isso não se pode ensinar. é preciso viver. e é ai que reside a importância da experiência de vida. é uma experiência. isso mesmo. na sua essência. um experimentar do real que vem com o tempo. que é pelo tempo transformado em nós em qualquer outra coisa para além do que se viveu. e sobre isso posso falar com eles. porque uma opinião como a que dei ao meu aluno nasceu dessa experiência. do ter passado por isso. saber o que se sente. o que se deseja. o que se consegue ou não. nunca, num professor, a experiência pode ser um instrumento de arremesso de uma pretensa razão universal. e quando o é perde toda a sua força. passa a ser uma imposição tão estranha para os nossos alunos como a mais abstracta das concepções científicas. e penso muito nisto. sempre que um aluno me pede uma opinião e preciso do que vivi para lhe explicar porque não deve [ou deve] ir por ali...

eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
poema em linha recta, fernando pessoa

||| da inquietação...


||| ... esta caixa foi-me dada há uns bons anos por uma aluna a quem dei explicações de história para preparação para os exames nacionais. foi um tempo em que me dediquei a treinar as minhas competências de preparador. tive, ao longo da minha vida como professor dois "explicandos". era esta senhora de uma certa meia idade simpática e um rapaz que queria entrar para relações internacionais. foram os únicos. esta coisa de ser preparador fora da escola nunca foi para mim. mas a relação que criei com aquelas duas pessoas fez-me pensar muito. a verdade é que o fiz sem valores envolvidos. não era um profissional da coisa e aprendi com eles tanto como eles comigo. foi uma experiência como todas as outras. o que ficou foi mesmo uma só ideia que pode parecer estranha. esta caixa continha um terço. isso mesmo. um terço. e os deuses deviam estar loucos. porquê? porque foi isso que essa aluna me podia dar. as condições de vida não eram as melhores na altura. mas o que me ficou desta pequena aventura de ser preparador foi mesmo uma ideia simples. é que estas duas pessoas olhavam para a escola de fora para dentro. eram os chamados auto-propostos. e quando olhavam para a escola só me diziam em respeito profundo que a escola tinha imensos projectos. coisas boas. coisas de qualidade. coisas em que gostariam de poder participar. que se fosse no tempo deles gostariam de estar naquela escola. e falavam dos clubes de ciências e teatro. dos projectos de literacia. e muitos mais. e era por eles que eu sabia tudo isso. e hoje, em que tanto do que transparece sobre a escola é mau penso sempre nisso. nas conquistas que fazemos como professores todos os dias e que ninguém sabe ou ouve com atenção. que importa que um aluno não tenha desistido da escola porque um grupo de professores ficou depois das suas horas e roubando tempo aos seus para que aqueles miúdos [e é de miúdos que estamos a falar] não fugissem da escola para a vida antes do tempo? vejo que cada vez mais se fala menos nisto. e era tão preciso falar desta lado das conquistas. não é das «boas-práticas» como um dia "estupidamente" lhes chamaram. é das conquistas mesmo. era preciso saber-se disto tudo que a escola guarda dentro das suas portas e fechado nas suas salas.. urgentemente. e a culpa é nossa que não falamos. do bom. não falamos. e era preciso falar para que fosse possível ouvir-se falar disso. urgentemente.


11/02/2014

||| uma aula em modo de porca e parafuso...


||| ... pedagogia: uma aula enquanto experiência e reflexão pode ser um instrumento de promoção da curiosidade para a apropriação do conhecimento. esta é a base de trabalho para esta aula para um nível básico de ensino do contexto e da realidade de um conceito.

||| ... metodologia: o professor começa por dividir a turma em dois grupos. um dos grupos ficará com a produção em série e outro com a produção artesanal sem que o professor dê essa indicação aos grupos. cada grupo divide-se depois em dois sub-grupos. a um dos sub-grupos do trabalho artesanal é dado um pedaço de barro [se possível] ou plasticina [dependendo das condições de sala e tempo]. é pedido a este sub-grupo de crie figuras geométricas ou figuras representativas. depois de este sub-grupo terminar algumas figuras é dado ao segundo sub-grupo do trabalho artesanal um pedaço de barro ou plasticina com o desafio de imitarem na perfeição as figuras criadas. a um dos sub-grupos do trabalho/produção em série é dada um caixa de canetas tipo bic com o objectivo de serem completamente desmontadas. após estarem desmontadas em peças o segundo sub-grupo recebe estas canetas para montagem e monta cada uma colocando numa caixa para embalagem. o trabalho do professor consiste em acompanhar os grupos e cronometrar o tempo e/ou fazer destacar a quantidade/qualidade (unicidade) de acordo com os objectivos estabelecidos para a aula. no final deve pedir aos alunos para fazerem uma observação reflexiva partindo desses dados. terminada a tarefa poderá o professor pedir que a repitam para trabalhar as questões das condições de trabalho/direitos e relação entre trabalho e produção.

||| ... esta aula tem como tema: a produção em série/artesanato. esta é uma aula pensada para o ensino básico e onde a imersão experimental resulta numa clarificação dos conceitos teóricos de abordagem aos momentos históricos que antecedem e acompanham a revolução industrial.

||| quando os iguais são iguais...


||| ... tenho assistido a um fenómeno que me preocupa enquanto professor mas ainda mais enquanto ser humano e cidadão. falo do radicalismo de grupos em contexto de escola. se a afirmação da diferença parece uma conquista a tolerância de uns para com outros não o é. é ainda, cada vez mais assustadora e marcada a "circularização" dos comportamentos que muitas vezes roçam a falta de tolerância [para não dizer racismo ou xeno e homofobia, se é que nestes conceitos estão todos os outros que neles não cabem]. é que o outro é o outro. isto está presente nos comentários em surdina ou nos comportamentos visíveis no "agrupamento". diria que há quase uma lógica de clã. e o outro é o outro e não um eu. o que quero dizer com isto é que passados tantos anos e tantos projectos de trabalho em torno da questão do racismo e/ou tolerância o que vejo agora é um crescendo de comportamentos de segregação das diferenças. uma reclusão em grupos diferentes. quase como se a igualdade fosse natural entre os comuns e os outros não fossem seres iguais mas outros. algo externo e a criticar ou ostracizar [não no sentido literal mas no sentido do não conhecer]. e como professor tenho que saber como combater isto. as palavras multiculturalidade ainda estão longe de serem uma realidade conseguida enquanto comunidade escolar em interacção. e penso que cada vez mais é preciso voltar a repensar as estratégias, formulas e formas de trabalhar com os nossos alunos esta questão sob o risco de começar a ser uma realidade cada vez maior a ideia de uma comunidade escolar fragmentada. 

||| há os deuses e os bons alunos...


||| ... a propósito de uma reunião com colegas surgiu a questão do "bom aluno". uma reunião não é um encontro de trabalho que era o que deviam ser as reuniões mas não são. não foi nesse contexto. foi no contexto de uma reunião onde vários professores se juntaram para pensar. logo, uma reunião. e enquanto ouvia e falava pensei muito nisto do "bom aluno". o meu melhor aluno teve dez no final do primeiro período. ele é o meu melhor aluno. também tenho alunos que são bons estudantes. tiveram dezanove. alguns. mas o meu melhor aluno teve dez. e foi por pouco que o teve. era para lhe dar nove. não consigo definir os meus bons alunos pela nota que lhes dou. ou simplesmente por uma avaliação de conhecimentos. ser bom estudante não é ser bom aluno. estudar é um exercício. ser aluno é uma atitude. é que ser aluno quer dizer está associado à origem alumnus: aquele que se alimenta para crescer se formos um pouco poéticos na leitura da palavra. aquele que caminha para a apropriação do conhecimento para crescer. o aluno. o estudante é outro. aquele que estuda. então o meu melhor aluno não é o melhor estudando. é aquele que está a fazer o caminho para se apropriar do conhecimento. com todas as dificuldades ou limitações. mas aquele que caminha na procura. e acho que confundimos muito as coisas. porque as palavras estão a perder significado. e confundimos um acto apropriado com o caminhar até à mudança. é por isso que o meu aluno que partindo de uma luta contra si mesmo e fez o seu caminho até aqui e ao dez que lhe coloquei na pauta é o meu melhor aluno. está a crescer. está a aprender. e não posso deixar de pensar nisto num tempo em que tudo o que é medido revela a falta de humanismo de que estamos cercados. penso mesmo muito e a sério nisto.

10/02/2014

||| o monstro que vive debaixo da cama...


||| ... um colega pediu-me uma ideia para uma aula sobre o trabalho em série e as linhas de montagem na revolução industrial. amanhã irei publicar aqui a estratégia para essa aula. mas antes disso pensei numa coisa que nunca tinha pensado. que medos há nos nossos alunos? e isto surgiu por ter ido buscar um livro para pensar a aula para o meu colega. o livro chama-se: the road to wigan pier de g. orwell. é daquelas obras obrigatórias para um professor de história. quase tão obrigatória como as memórias de edmundo pedro se quisermos falar da prisão do tarrafal. e pensei nos medos pela questão da criança/jovem no tempo da revolução industrial. a prole como força de trabalho. e lembrei-me recentemente de uma conversa que tive com setenta alunos numa escola em lisboa onde mostrei esta imagem (ver aqui). explicar a alunos que hoje consideram a escola como um dado adquirido que um daqueles miúdos fotografados tinha treze anos dos quais quatro já tinham sido passados a trabalhar parece algo impossível. mas perguntei. qual o vosso medo. e uma voz de uma miúda de olho brilhante e atento respondeu: de não termos futuro. e desde essa resposta fiquei com medo, eu enquanto professor. medo de sermos nós, professores, com os nossos medos actuais que lhe tenhamos roubado essa única ideia poderosa. de se ter ou não futuro. se um dia mais não é futuro e é só mais um dia então a escola morreu. se há lugar onde o futuro habita é na escola. e isso é o que mais rapidamente temos que recuperar. porque o trabalho é uma actividade. e o futuro é o sonho. o que queremos criar. o que eles podem criar para melhorar o tempo. sem isso serão alvos fáceis para quem os quiser dirigir para o caminho criado. e fiquei eu com medo. medo de ter visto isto sem o poder gritar ao mundo...

||| dez passos para a felicidade suprema...


||| ... de tempos a tempos sinto, como professor uma imensa necessidade de estudar. de aprender. e vou procurar formação. didacticamente pensada. estruturada. que me desafie. que tenha algum interesse válido cientifica e pedagogicamente. ultimamente, tirando as ofertas oficiais e de corrente do momento há algumas coisas curiosas. os gurus. chamo-lhes assim. profissionais que ensinam receitas em cinco passos para teremos melhores alunos. dez passos para combater a indisciplina. vinte passos para os alunos e professores do futuro. geralmente com um livro associado. e depois é só cumprir a receita. um bocadinho disto, mais aquilo, mais outra coisa. e a imagem de gurus da coisa surge sempre na minha mente. a absoluta certeza das receitas torna-se quase um culto da ideia em si. e sigo. a receita. leio-a. sou curioso e tento perceber a lógica. eu que sou professor e que às vezes dou formação de professores gosto de seguir esta lógica. porque eu quando vou para uma aula tenho mais dúvidas do que certezas. e ainda mais quando estou a trabalhar com colegas em orientação de formação. assusta-me esta visão das certezas absolutas em receitas criadas num tempo e num espaço que certamente não são o meu. e depois há outras coisas. outros cursos curiosos. onde quem orienta também tem dúvidas mas vai partilhar o que sabe. o que pensou. com as mesmas dúvidas de quem está do outro lado num momento qualquer que muda sempre. e lá vou eu. aprendo. comento e analiso. acho fundamental que um professor tire um pouco do seu tempo para esta coisa de se formar. e esse tempo é hoje muito mais importante se for um tempo de pensamento posto em comum. em conjunto. em debate e diálogo. porque isso nos é negado tantas vezes no correr dos dias que mais do que qualquer receita o que precisamos é mesmo desse tempo de diálogo para a construção de um novo pensamento do que qualquer outra coisa... penso eu...

07/02/2014

||| vós sois o sal da terra...


||| ... eu sei que parece impossível. só dei, na minha vida enquanto professor, um "sermão", uma vez. foi a uma turma do oitavo ano numa escola em coimbra. o meu "melhor" oitavo ano enquanto professor. alunos fora de série. uma turma de miúdos fantásticos. um ano de trabalho que recordarei sempre. mas foi um "sermão". acho este instrumento uma coisa profundamente estranha. e dei o sermão do alto da minha sapiência porque eram miúdos fabulosos com recursos fora de série e estavam a deitar isso pela janela fora como se nada fosse. e lá fui eu dizer que há quem não tenha. que assim não iam ser ninguém. etc... etc... etc... vós sois o sal da terra. quando terminei estava exausto e eles a olharem para mim com ar de espanto. dar um sermão fica em mim como dizer a verdade num político português. é algo completamente surreal. nunca acreditei em juízos de valor nem discursos de moral e por isso tudo ganha um ar artificial que me cansa profundamente. depois deste sermão, mais nenhum saiu da minha boca. acredito que quem o faz deve terminar o tempo em exaustão. optei sempre por outras formas, outras regras, outra dinâmica. optei por actuar antes de ter que dar o sermão. até porque as lições de moral tornam-se inúteis quando o exemplo não segue o mesmo caminho. e eu que sou de quebrar regras não sou o melhor exemplo para falar do que quer que seja. defino sempre duas regras: o respeito e a ordem. o respeito é mútuo e inquebrável. a ordem não é para ser destruída. podemos quebrar todas as regras mas não quebrar a ordem. e deve ler-se a palavra ordem no sentido original da palavra. por isso, desculpem quem usa os sermões como modelo de disciplina mas para mim é tempo perdido e desgaste a mais. e sinceramente, se fosse um sermão a sério era uma aula. e isso eu sou capaz de dar. vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. perguntando um grande filósofo qual era a melhor terra do mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe. 

||| é como entrar no túnel de lavagem automóvel...


||| ... sentei-me para pensar uma aula. desfiz tudo o que tenho feito no correr dos dias que são mais hábito do que qualquer outra coisa. peguei num livro. eco falava comigo de professor para professor. não era um eco. era umberto eco. disse-me: a imagem é ideia e o som é paixão. é por isso que a poesia e a música não são belas. são apaixonantes antes de serem beleza. ao contrário da imagem. nunca tinha pensado nisto. quer dizer, pensado já tinha pensado. nunca tinha era pensando nisto para uma aula. e recuperei um exercício antigo de preparar de raiz uma aula. ir buscar mais dois livros. pensar em tirar umas cópias de umas imagens. ir procurar origem das obras. biografias dos autores. ir perguntar coisas a mim mesmo que já nem recordava. apeteceu-me por instantes ter os meus apontamentos das aulas de teoria da história para recordar o que dizia o professor eduardo catroga sobre os pitagóricos. que tudo é proporção. lembrei-me o oráculo e da frase escrita na parede: evita o excesso. as regras da nobreza da vida segundo os gregos. lembrei-me da história ouvida em passeio por mérida de que no anfiteatro ao deixar cair uma moeda esse som era ouvido no palco [cena]. e tudo surgia na memória como um exercício muito belo. recordei o tempo e o gosto do que é preparar uma aula a sério. apeteceu-me encher o espaço onde estava de folhas e ideias. de referências. de linhas a lápis para juntar ideias. e ficou ali a certeza que somos melhores professores quando, neste exercício de preparar uma aula, aprendemos mais. roubaram-nos foi o tempo para isso. e por isso vamos reproduzindo o que temos feito. e quem perde são eles. os nossos alunos. sempre.


06/02/2014

||| quando estamos do lado errado da porta...


||| ... todos os professores erram. eu sou professor. muitas vezes crio erros. é simples. é da natureza humana. no decurso de uma aula acontece. uma data errada. um nome errado. uma citação errada. uma estratégia errada. e uso muitas vezes o velho conceito de errata. como se isso fosse possível de aula para aula. um papelinho onde diz: o professor errou quando disse mil cento e quarenta e devia ter dito mil cento e quarenta e três. muitas vezes ouvi que se o professor errar não tem mal. eles [os alunos] não sabem e isso não importa. importa sim. e muito. porque o professor, no professor, reside o último lugar da honestidade intelectual. da veracidade do conhecimento. se não sei, não digo. não invento. não sei. vou saber. se cometo um erro é simples. corrijo. como lhes digo sempre que devem fazer. corrigir é um acto nobre de qualquer brincador com a ciência e o saber. por vezes a memória falha. ou estamos mesmo como portadores de uma certeza errada. uma folhinha recortada e entregue no final da aula: ontem o professor errou ao dizer isto. devia ter dito isto. simples. porque há um lugar onde o professor não pode entrar. esse lugar é a incerteza da dúvida. inventar é um exercício nobre. mas longe deste lugar onde o erro é um erro e uma invenção uma estratégia errada num lugar onde o professor tem que ser um incerto perfeito humano que erra. simples.

||| umas vezes assim, outras assado...


||| ... ó professor porque é que umas vezes nos explica tudo o que se vai passar na aula e outras não? o professor às vezes diz que não sabe o que vai fazer, mas sabe. é o mal de ter alunos inteligentes, pensei depois de receber a questão. analisei se devia responder ou não com a honestidade da estratégia. e respondi. com essa honestidade. sabes joana é que há aulas que penso e crio e preciso que vocês as vejam como eu as vi. preciso que percebam onde quero chegar. e eu não dou aulas para alunos imaginários. dou-vos aulas. a cada um de vocês. e se para alguns será concreto perceberem a lógica de toda a aula para outros isso pode não acontecer. e por outro lado, cada aula que dou é única. não a repito. sabes bem disso pois as conversas entre turmas chegam-me aos ouvidos. e por ser única muitas vezes estou a pensar na forma que vai ter ao mesmo tempo que vos vou explicando. outras não. outras aulas que já as tinha pensado ou cujo objectivo estava no fim quase guardado em segredo, essas, aquelas a que chamo o lugar do espanto não revelo o segredo da coisa. e porque estou a trabalhar com vocês uma coisa muito simples. chama-se confiança e autonomia. as duas são indissociáveis. e a joana acenou com a cabeça. agora percebi professor. andava intrigada com isto. é que pode explicar menos. já percebemos a lógica. já sabemos andar por nós. e adorei aquela frase final. fechei a porta da sala e pensei que minha missão com eles ainda só agora começava. se já sabiam andar então tinham que saber que caminho construir. e esse é um longo e imenso trabalho que tenho pela frente como professor...

05/02/2014

||| ó professor o que é ser virgem...


||| ... quando eu era estudante achava que as pessoas [os meus professores principalmente] e os livros tinham todo o conhecimento. agora os meus alunos acham que está tudo no google. perguntam insistentemente quando lhes digo qualquer coisa: como é o professor sabe isso? durante um tempo respondi que li num livro qualquer. ainda o faço levando para a sala de aula vários livros. mas de tempos a tempos respondo: li na net. a expressão é de conforto: ah... então está bem. se não está no google não existe como diria uma amiga em conversa de comboio entre risos. mas o professor lida hoje com uma gestão do conhecimento muito para além do óbvio. as perguntas que ganham forma são mais complexas. são humanas. do ser humano. da vida. lembro-me que no meu primeiro ano de trabalho como professor, era eu um jovem cheio de dúvidas [agora sou adulto com mais ainda] uma aluna no meio de uma aula de história em que eu falava das vestais me perguntou o que era ser virgem. durante uns segundos fiquei naquele limbo que antecede o pânico. não sei onde fui buscar a resposta mas lá expliquei. sem reservas mentais. tomando o caso dos oráculos gregos e romanos e fazendo o paralelo com outras histórias. e a realidade. e hoje os meus alunos fazem-me perguntas assim. não destas mas outras. recordo com frequência um pedido de uma aluna recente. queria visitar uma prisão. desconhecia o lado marginal da sociedade e isso levantava nela uma curiosidade que era dúvida. perguntou-me se já tinha visitado alguma. falei-lhe de tudo abertamente. de que até tinha ido dar uma aula a uma prisão em leiria há uns anos. que eram pessoas. que um dia tinham cometido um crime. ou simplesmente errado nas companhias. e ela reparou que lhe falei sem as reservas ou as máscaras que usamos para tornar as coisas no que não são. o efeito disney que as histórias dos irmãos grimm sofreram. é o que fazemos ao real. muitas vezes. mas um professor nunca pode deixar de responder. a razão? é que se não responder os alunos vão ao google e o google não vê pessoas. vê códigos de informação. e mostra tudo. com a brutalidade das máquinas e sem a reserva da inteligência e sensibilidade necessária que nos torna seres humanos. tudo isto é tão simples.

||| estava inês posta em sossego...


||| ... há palavras a desaparecer. falo muito disto. mas a verdade é que isso representa o que vivemos nos tempos de hoje. quando usamos menos palavras. ou as mesmas, sempre. ou as simplificamos no seu significado. uma das que mais gosto é o sossego. muitas vezes digo aos meus alunos que aquele momento é um tempo para o sossego. não é para estarem sossegados que é uma violação da ideia do que é estar em sossego. muitas vezes usamos a expressão: não consegues estar sossegado. quem ainda usa. porque a maior parte das vezes o que oiço é: não consegues estar quieto. como se o outro, o nosso aluno, estivesse a jogar ao jogo das estátuas e o objectivo era mesmo a imobilidade. quieto. parado. mas sossegar não é isso. é retirar a pressa. é quietude. tranquilidade. é o tempo antes de agir. o tempo necessário a um aprofundamento da reflexão. e como posso eu, professor, dizer que os meus alunos não são capazes de pensar, criar, repensar, reflectir se os quero quietos em vez de sossegados. é que as palavras descrevem a realidade. e o tempo acelerado que vivemos eliminou das salas de aula esse cultivo do tempo do sossego. e com isso tudo o resto. e quando só queremos alunos quietos estamos a pedir que o pensamento também o esteja. apeteceu-me pensar nisto.

04/02/2014

||| o professor faz-me sorrir...


||| ... ó professor, o professor faz-me sorrir. não consigo falar consigo a sério. está sempre na brincadeira. mas ó rita acabámos de ter uma conversa muito séria. pois foi. mas não parecia. se há coisa que gosto é de conversar com os meus alunos. muitas vezes nos intervalos. no tempo inútil da escola. falam-me das músicas que ouvem, das séries que vão vendo, dos lugares por onde passam. é estranho pensar nisso. que às vezes me falam de coisas que não conheço já. oiça professor. e lá vem um auricular parar ao meu ouvido. gostou? umas sim, outras não. e lá falo de outras músicas e de outros cantores. e esse tempo, este tempo é algo de precioso. o que me assusta é que é cada vez menos. porque tudo hoje é um lugar de passagem. de cá para lá. numa pressa que retira esse tempo para eu me sentar num degrau de uma escada e simplesmente conversar. ser humano. ser pessoa para além de ser professor. e com isto eles, os meus alunos, perdem mais uma referência. e transportam esse lugar que nós tivemos de figuras de referência para os ídolos que são cada vez mais produtos de um marketing cada vez mais agressivo. e sentado num lugar qualquer, nestes cinco minutos de tempo, penso nisso. e o quanto é importante ser pessoa antes ou ao mesmo tempo de que sou professor...

||| não conseguimos olhar para o sol muito tempo...


||| ... sempre que pensamos em avaliação a palavra, conceito e mecanismo dos testes surge como imediato. agora, exames. palavra antiga e poderosa que mostra que tudo o que se sabe cabe num conjunto de exercícios teoricamente explanados numa folha de papel a resolver em tempo condicionado. lembro-me de há uns tempos ir assistir a uma conferência onde uma especialista [cada vez mais gosto deste conceito] dizia que testar era preparar para a vida. e por isso examina-se. como se o professor tivesse uma máquina para examinar o seu aluno. ver por dentro o que sabe. se sabe responder ao que lhe é pedido, por si ou por outros. a reprodução é evidente. se eu, professor, disser azul, o aluno fizer um exame e ler a pergunta: de que cor é? e responder azul, tem vinte. simples. e lá sai ele de mais um teste [desculpem, exame] mais preparado para a vida. o céu é azul. a vida será muito mais fácil assim. e se o professor seguinte não fizer testes? como eu. e mostrar a esse mesmo aluno esta fotografia. e lhe disser que é o sol. e o azul é o céu. ele, aluno examinado, vai dizer que está correcto. então o professor proscrito que não faz testes dirá que não é o céu, nem o sol. é uma fotografia alterada com um filtro de uma lâmpada tirada numa sala em trinta segundos. para o manipular. para provar que nem tudo o que está numa folha de papel pode ser examinado e que a vida não é só preto e branco e azul. talvez então ele, aluno, perceba que pensar é mais importante do que reproduzir. e que um exame não pode ser o centro do processo de aprender. pode e deve existir. só não pode ser a razão de tudo...


03/02/2014

||| uma aula para cortar ideias velhas...


||| ... pedagogia: compreender a história é tornar a visão e noção do tempo num conjunto de representações concretas sobre a personagem histórica no seu contexto. partindo da premissa que o homem é "o homem e o seu contexto" esta aula permite uma análise sobre a produção histórica vista do presente para o passado criando um olhar crítico e atento sobre o mesmo.

||| ... metodologia: o professor pede aos alunos, numa aula anterior que recolham, cada um, cinco registos de pessoas com a idade situada entre os setenta e os oitenta anos, entre os trinta e os quarenta anos e entre os dezoito e os vinte anos. cinco frases para descrever/responder a cinco perguntas: o que é a vida. o que é a morte. o que é o tempo. o que é mais importante para si hoje. o que foi mais importante para si nos últimos anos na história do nosso país. o professor pode optar por escolher perguntas direccionadas para temas concretos. por exemplo, o papel da mulher ou a criança ou a saúde, etc... feita esta recolha na aula o professor pede aos alunos para escreverem numa folha de tamanho a3 cada uma das afirmações registadas. para poupar papel podem ser todas numa só folha. ou mesmo numa folha a4. distribui depois tesouras. pede aos alunos para recortarem palavras que consideram relevantes em cada tipo de registo por geração/faixa etária. pede depois aos alunos que se organizem em três grupos. cada grupo deverá, partindo as palavras recortadas criar uma lei. uma lei adequada ao tipo de pensamento representado pelos diferentes registos. uma lei que transforme o pensamento/mentalidade descrito ou encontrado em cada faixa etária que fosse inovadora socialmente e historicamente. no final são debatidos os resultados e as razões de fundamento da lei criada, assim como, afixadas as leis num corredor da escola ou na parede da sala de aula.

||| ... esta aula tem como tema: esta aula é um desafio para um nível secundário. é acima de tudo um exercício de tripla leitura. uma leitura sobre o contexto histórico, uma leitura sobre a intervenção social e uma estratégia de desenvolvimento da capacidade de oratória e retórica.