30/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

alice vieira

||| explique lá isso da esperança...


||| ... ó professor, explique lá isso da esperança. então eles iam assim. sem saber? sem mapa? a pergunta era legítima. a minha resposta tardou. andei em busca da esperança. ou então a procurar a resposta. que era simples. sem mapa não. a grande maioria dos territórios era conhecido. assim como já disse que noventa e muitos por cento da população trabalhava o campo. não eram marinheiros. fomos depois país de navegadores, mas por interesse. poucos por vocação ou conhecimento. lá está o professor, mas o que é isso da vocação? e comecei a perceber. fomos nós, com a falta de esperança. fomos nós que retirámos da equação o talento e a vocação e colocámos as metas e os finais examinados que retirámos a força e o poder explicativo destas palavras. e fiquei suspenso neste pensamento. uma geração sem esperança é uma geração sem futuro. habituada permanentemente ao presente. habitante do presente, sem mudança possível ou desejável. e a aula parou. era preciso conversar. falar da esperança e da vocação. não com o espírito moderno dos gurus da coisa. de uma de uma forma histórica, limpa, inquieta. revitalizar a curiosidade. e o desejo de mudança. de melhoria. de crescimento. e no final, quando já tinha tocado a campainha, ouvi: ó professor, hoje gostei muito da sua aula. percebi finalmente porque conseguimos chegar à índia. foi a esperança que venceu o medo. e podia ser só uma frase bonita. não fossem as palavras de um marinheiro do século quinze ao ver terra depois de meses no mar. recriada ali. refeita ali. seria esse o começo da aula seguinte. porque agora fazia sentido. triste tempo este em que a esperança tem que ser ensinada...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| do tempos dos deuses esquecidos...


||| ... aos deuses cabe o tempo. o poder do tempo. a força e a forma do tempo. é tão simples quanto isso. e nós, professores, roubamos aos deuses pedaços desse seu triunfo. e colocamos tudo em forma de palavras. tempo e palavras para ensinar a memória e o saber dos homens. resta-nos muito pouco para além disto sobre os deuses. conservar a memória. pela palavra. e só os deuses podem roubar-nos o tempo que sempre foi deles. o tempo e o chão. o tempo e a memória. não podem outros homens roubar o que não lhes pertence. porque pode, então, a palavra travar tal fuga. tal injustiça. e de nada importa tudo o resto enquanto assim for. enquanto não houver lugar para além deste. ou força para além desta. os deuses olham-nos com a piedade da permanência. sejam eles como forem. tenham eles o nome que tiverem. há no nosso exercício de ensinar a forma plena da memória do mundo. e isso ninguém tira. ninguém, outro igual a nós, pode tirar. porque precisamos habitar a matéria da palavra, nós professores, e do tempo e do silêncio. sermos escutados. ensinar a escutar. ensinar a estar em atenção. em presença. em espera. sim, todas estas palavras antigas. como a memória dos homens. daqueles sentados em volta de uma fogueira que nos trouxeram até aqui. e olhar-nos-iam abismados por evocarmos a falta de tempo para conversar. para contar as histórias que relatam a memória das coisas. e a nossa própria memória. aos deuses podemos pedir que não nos abandonem. e a nós, que ensinamos, podemos pedir, só mais uma vez, que voltemos a dar valor à palavra. e ao tempo. dela, nosso e deles. 

29/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

luís nava

||| é uma espécie de circo...


nota prévia: considerações politicamente [in]correctas

||| ... ao entrar na escola pensei que precisava de olhar melhor, em volta. ó professor, está bom? sim, mariana, estou. pronto para mais uma semana. o meu olhar atravessou a mariana e parou no pátio que antecede os blocos de sala de aula. havia pequenos grupos. uns falavam mais alto. outros corriam. e uns estavam a tentar fugir ao fumo do cigarro aceso atrás de uma árvore para ninguém ver ou fazer que não vê. ó professor, são os do "profissional". e aquela frase ficou-me no resto do caminho. pensei que no meu tempo havia os punks, os betos, os... eram grupos criados pelo estilo de vida. ou de roupa. ou de música. ou de hábitos. ou mesmo de linguagem. agora não. aqueles "grupos" que habitam a escola, para além desses, são criados pelo sistema. pela escola. por cada frase que dizemos e eles ouvem. os do vocacional, os dos pief. os de... e com isto criamos os grupos. afastamos e aproximamos. separamos. uns e os outros. quase como o fazemos em sala de aula. os bons e os maus alunos. agora não há maus. há com "dificuldades". agrupamos. e quando alargamos isto à escola representamos aquilo que não gostamos de ver na sociedade. reproduzimos na escola, isso. em vez de o combater. em vez de procurarmos criar mudança somos agentes de promoção dos ajuntamentos. juntamos todos, em grupinhos. porque o sistema o exige. eles, os miúdos, agora metidos todos em "classes" de comportamento e aprendizagem. e isto é tão estranho. mas é, também, tão visível. e hoje parei para pensar nisto. porque é urgente...

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| golpes e/ou a inversão da lógica...


nota prévia: este texto é politicamente [in]correcto.
nota prévia [dois]: sou anarquista racional, logo, [a]partidário.

||| ... o antónio ganhou ao antónio. o antónio, ao sair, deu os parabéns ao outro antónio. o antónio, ao ganhar, não disse obrigado ao outro antónio que andou por lá mais tempo. o antónio que ganhou, se vivesse no século dezoito teria protagonizado um "golpe palaciano". o antónio que saiu agradeceu a quem esteve com ele. o antónio que ganhou, com sala cheia, viu chegar-se a ele quem agora espera dele a vitória e um lugar perto, dele. e não importa a ética. nem o retrato que fica. diziam, ontem, os observadores. eu, afastado pela distância do sofá, pensava: e quem nos fez chegar aqui e achar isto tudo normal? quem nos fez chegar aqui e ver gente a bater palmas a esta cena palaciana onde tudo está errado? e voltei-me para a escola. para os "concursos". para a "avaliação". e vi lá a mesma coisa. as "denúncias" entre quem está na mesma lista, no mesmo destino, reclamando por um nome que está acima por uns pontos numa escala interminável de injustiças. quem se apresenta para uma avaliação que nada melhora pedindo um excelente para poder guardar num papel. quem se agarra a um sistema em que o outro é para ser agradado. onde se tem medo que "depois" ele ou ela não façam as coisas, não assinem o papel, não coloquem a nota, porque eles/as estão revestidos de um poder senhorial que não deviam ter. e voltei a perguntar-me: quem nos trouxe até aqui? fomos nós? ou teremos sido trazidos até aqui por razão e lógica de um sistema que outros desenharam assim? e que fazemos nós? para além de reclamar sobre o outro que está no mesmo caminho que nós, não fazemos nada. tem que ser assim. é a vida. é assim. não, não é. fomos trazidos até aqui porque nos deixámos trazer. tão simples quanto isto. e até parece que é bom. e justo. e bem frequentado. e fiquei a pensar nisto tudo. e na escola. e no imenso palácio em que está transformada. com os golpes e tudo. e fiquei mesmo a penar nisto. por culpa do antónio que ganhou ao antónio. ou por culpa nossa.


26/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

al berto

||| das coisas boas, ainda...


||| ... catarina, importas-te de chegar aqui? diga professor. preciso que orientes a teresa para esta primeira matéria. ela precisa de um apoio de alguém. ok, professor. como sabes eu estou sempre na biblioteca, na mesa do canto, nos intervalos. ou quando não tenho aula para dar. podem sempre lá ir ter comigo. ya, professor, está sempre lá. pode ser. quando for preciso eu vou lá. catarina e precisam de mais alguma coisa? esta matéria é um pouco mais complexa. não professor, obrigado. e sorri. sabia que não. que não era preciso. mas que eu tinha pedido algo simples. ou complexo. por uma razão clara. não é fácil colocar nas mãos deles o apoio que não conseguimos dar. que eu precisava tanto ter tempo para dar. mas cada vez mais aposto nesta ideia da relação entre pares. habituei a que assim fosse. entre eles. e isso vai-se construindo ao longo dos dias. evitando a valorização pessoal em si mesma. e criando as redes de interdependência que o trabalho em grupo permite. num tempo marcado pelo individualismo, remar no sentido contrário é mesmo muito complexo. ensinar isso aos miúdos, ainda mais. e por isso mais do que ensinar é colocar-lhes nas mãos essa força. que eles a sintam. e entendam. a percebam. porque, infelizmente, não me deixam chegar a todos. e eles são, comigo, uma força. tem que ser assim. é um remendo. mas é bom ter miúdos como a catarina que ensinam comigo, ao meu lado, ajudando. ainda há coisas boas. destas. um sim, simples, deste. faz a diferença.

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| o que se ensina com mais um papel?


||| ... expliquem-me, com clareza, qual o ganho de mais uma tabela para mais uma números para a aprendizagem dos meus alunos. expliquem-me, porque tenho que estar mais umas valentes horas a preencher mais uma coisa inútil para comunicar uma coisa que uma conversa de cinco minutos chegava para descrever com muito maior eficiência. expliquem-me para que serve mais uma planificação toda bonitinha numa tabela para ir parar a um dossier e aos emails de toda a gente que não consegue ter mais tempo para ler mais uma coisa. e mais as metas. e mais as normas. e mais as notas informativas. e mais as circulares. e mais as leis. e mais as notas. e mais papelinhos e o email cheio de coisas destas. apetece só fazer uma coisa: lixo. o meu lixo no computador diz: para esquecer! e devia mesmo ser assim. arrancar isso tudo. desfazer isso tudo. voltar a ter uma boa mesa, com boas cadeiras e boas conversas. tempo para isso. substituía muitos papéis inúteis. e em menos tempo. e com muito mais humanismo. e com muito mais veracidade. e com muito mais utilidade. mas não. mais um papel. com mais uma tabela. para mais uma estatística. resumiram a educação a isto. infelizmente.

25/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

ruy belo

||| eram só retratos da escola...


||| ... o rui sempre me conseguiu surpreender. gosto de alunos assim. eu digo a e eles fazem a + b. é bom. tinha pedido retratos. retratos da escola. era um desafio semanal. para analisar a evolução do conceito de comunidade. de como nos relacionamos uns com os outros, historicamente. isto por causa do "passeio público". em que expliquei essa ideia da "mostra social" e da "validação". assim como meti a minha colherada na burguesia. o rui, como sempre, foi o último a entregar o trabalho. sempre na primeira semana de aulas. sempre na sexta-feira. e sempre com o tempo ultrapassado para além de toda a boa-vontade. na janela do carro, eu de braço estendido depois de ouvir: professor! espere aí que tenho aqui o trabalho! vidro aberto, lá recebi o "cartão de memória", como me disse. não percebi que o tivesse dito assim e porquê. mas disse. cartão de memória. não sei a razão mas quando cheguei a casa foi a primeira coisa que fiz. abrir aquele cartão. uma única fotografia e uma pasta com vinte outras. a fotografia inicial era de uma aluna. de costas para a entrada da sala de aula. as restantes vinte eram do corredor. só com essa aluna. sempre de costas. sem qualquer alteração de plano. só mudava uma coisa. a luz. percebi que tinha sido tirando ao longo do dia. de manhã até ao fim de tarde. talvez por isso ter esperado para me entregar aquilo. a minha dúvida mantinha-se. eu tinha pedido retratos da comunidade. eis que, voltando a encontrar o rui lhe disse: gostei das fotos. gostei do trabalho. podes explicar-me. o rui, miúdo diferente em tudo, disse: ó professor, sente-se aqui. aqui era o degrau da escada que permite o acesso ao andar superior das salas. tirou a máquina. mostrou-me a primeira foto. disse: professor, a legenda é: neste lugar somos só nós, indefinidos. e andou para a frente para as fotografias no corredor e disse: professor, a legenda é: neste lugar sou só eu. dei-lhe vinte. e um abraço. e os parabéns. depois de estarmos um bom tempo na conversa o rui rematou tudo assim: ó professor, acha mesmo que há comunidades na escola? não é isso que nos ensinam. não é isso que esperam de nós. não é isso que fazem de nós. e por acaso agora mesmo olhei para as fotos. e para a lição que o rui me deu. e devolvi o "cartão de memória". 

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| desculpem, mas enganam a quem?


||| ... o que vejo nos rostos é um cansaço de fim de ano. os olhos vermelhos. o tempo passado em movimento. sem tempo para nada. dez turmas. onze turmas. nove turmas. cento e muitos, duzentos, trezentos alunos. e a invenção do absurdo nas mãos. os vocacionais sem vocação. nós, sem preparação. e sem tempo para ela. e ainda é só o início. e ainda bem que nem todos estão neste espaço, nem neste tempo. que se salvem alguns. a escola engrandeceu. ou formos nós que diminuímos. sim. somos menos. se olhar, em volta, na sala dos professores, vejo que somos mesmos. os mesmos, não há rostos novos. há poucos rostos novos. todas as estratégias gastas, às vezes, em dez minutos. e um dia com horas a mais. demais. e olhar para as coisas sem as ver. sem as ler. dizer que sim. tentar compreender o que pedem. já nem isso é fácil. aceitar mais uma coisa para fazer. não desistir, diz a mente. olhar para os miúdos e ver que a culpa não é deles. podiam ajudar, mas não é deles. é do monstro. do sistema. que é um monstro. atirar para as calendas gregas a conversa pedida. o filme para ver. o livro para ler e trazer para a aula. conseguir gerir cada lição. nem que seja por uns minutos. não ter tempo para responder a perguntas. abrir e fechar a porta e dizer que podia tudo ser diferente. começar a aula a desejar fazer aquilo que gostava mesmo de fazer. olhar para o relógio e ver que o tempo passa. depressa demais. largar um sorriso para uma delicadeza rara de alguém, até de um miúdo inesperadamente. ver nos outros, os outros. não reconhecer o grupo. responder a um pedido de ajuda de alguém como eu: já nãos sei o que fazer aos tipos do vocacional. passam de miúdos a entidades. perguntar como gerir tudo isso e dizerem-me que não há receitas. que ninguém sabe muito bem o que é para dar ou fazer. mas que tente. e tentar. uma vez e outra vez mais. e perguntar no fim: desculpem, mas enganam a quem? deve e só pode ser um engano reservado para a estupidez dos números. porque tudo o resto é tão claro que qualquer um vê. sorrir, mesmo assim, porque aquele miúdo, disse tudo certo e rematou com obrigado. e no final, fechar os olhos e perguntar: onde estou.

24/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

maria do rosário pedreira

||| da degradação da arte de ser educado...


||| ... provocação: esta gente, essa gente, que fala, passou pela escola. mas estou farto. cansado. exausto. de ouvir, todos os dias, falar das coisas da educação com palavras que não cabem na escola. nem no ser educado. em qualquer ser com o mínimo de educação. estou cansado de abandalharem isto tudo. de degradarem mais o que todos os dias tento salvar. porque não se calam? porque não remetem as considerações que não interessam a ninguém para os gabinetes, congressos ou comissões em que falam uns para os outros e tudo fica por lá. porque não se calam? porque continuam a empurrar o gozo para a escola. eu sei que é pelo desgaste que se retiram as forças. mas também é pelo desgaste contínuo que se conquista a raiva. e já chega. de tão mal tratar tudo isto. da altivez e do poder. da soberba. raios partam um povo que não sabe dizer não. raios partam, se não vou ver os professores dizerem não. é que já tudo é ultrapassado para além de todos os limites. horários refeitos três e quatro vezes, espaços por abrir, gente por integrar. mas nada disso importa quando alguém abre a boca no seu soberano lugar de palha e diz uma palavra qualquer que banaliza tudo. e a escola é o lugar oposto ao banal. devia ser. estamos a falar de educação. da mesma que falta a quem diz coisas embutidas de todo o espírito pleno do estapafúrdio completo para iludir as hostes. e caímos no banal. no ridículo. era só aí que faltava chegar. porque não se calam? ou falam entre paredes. ou vão para os montes gritar e esperar pelo eco. é que alguém tem que dizer a toda esta gente que há, na escola, quem saiba o que é a educação. e a boa educação. nem que seja no princípio básico das regras de cordialidade. e as palavras, ridículas, podem ter lugar em conversa de café. mas para a escola, na escola, não. e nem que seja isso, fica aqui escrito. não. é tempo de calar estas palavras. para e na escola. e dizer não. já chega.

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| já não sei o que é a escola...


||| ... já não há escolas. há agrupamentos. é tão estranho isto. este conceito que não é nada. a palavra escola está a ter os dias contados. pode parecer estranho, mas é assim. e vamos, todos, dar lugar ao arrependimento de isto ser assim. por muito estranho que seja. e ontem, em discussão, contaram-me uma história. uma menina entrou para a escola para o seu primeiro ano de aula. escola, sim, ainda nesse tempo. a professora pediu: desenha uma flor. a menina desenhou uma flor grande. a professora observou o trabalho feito e afirmou: isto não é uma flor. uma flor é assim: tem pétalas, folhas, é colorida, etc... e desenhou na folha da menina uma flor. passaram uns tempos e no início do ano seguinte a menina tinha mudado de escola. era, outra vez, o primeiro dia de aulas. uma nova professora pediu a todos, na turma, para desenharem uma flor. todos desenharam, menos a menina. a professora, intrigada, perguntou: então, porque não desenhas uma flor como pedi? a resposta da menina foi simples: porque a professora não me disse como queria a flor. e dei por mim a debater com colegas a dualidade da visão: simples/complexo. por causa de uma maçã. de dar uma aula partindo de uma maçã.  e de que fazemos sempre o exercício contrário. simplificamos. é quase natural. tornar simples as coisas. que não o são. para entendimento. porque, julgamos, o complexo não é tão facilmente compreendido. vamos do complexo para a simplificação. eu tenho um problema. vou ao contrário. vou do simples para o complexo. é por isso que os meus alunos sempre me disseram que eu era complicado. porque não quero que eles vejam o óbvio explicado até ao limite da exaustão. tudo lhes é dado. simples. e não pode ser. não deve ser. explicado, sim, tornado objecto didáctico. mas simples, não. porque nada é simples. e muito menos o conhecimento. dei por mim, a pensar nisto, ontem. em conversa entre professores.

23/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

pepetela

||| uma aula para [r]ensinar as palavras...


||| ... pedagogia: a construção e utilização de um vocabulário rico e explicativo/ilustrativo é determinante para a aprendizagem científica, assim como, para o desenvolvimento do conhecimento sobre o mundo. a lógica desta aula é exactamente o de explorar pedagogicamente a palavra como instrumento de aprendizagem.

||| ... metodologia: o professor preparar previamente um conjunto de imagens [6 a 12] com objectos ou espaços imaginários. [podem ser retirados de um filme de ficção científica ou de uma produção de autor/artista]. no início da aula o professor escreve um conjunto de conceitos/termos/palavras de difícil interpretação pelos alunos [depende do grau e do nível]. distribui depois um jornal por mesa [um jornal/dois alunos] , cola e uma tesoura por mesa. projectava a imagem pede aos alunos para recortarem partes de palavras, letras ou similar que formem uma palavra inventada. no entanto, terão que ser capazes de explicar a composição da palavra criada. com a imagem projectada pede aos alunos que digam as palavras criadas e as expliquem por ordem, assim como, a sua composição. pode criar um mural de "novas" palavras e seus significados. no final, revela a formação das palavras que tinha colocado no início da aula para análise e explica a sua composição. podem, os alunos, criarem ainda um texto final com as palavras inventadas.

||| ... esta aula é sobre: a utilização do processo criativo para a percepção da composição das palavras para apropriação do seu significado. o uso de novos conceitos/termos/palavras permite uma melhor percepção do conhecimento e da realidade, bem como, valoriza a apropriação de mais rico e esclarecedor vocabulário.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| aqui, na sala de aula...


||| ... aqui, na sala de aula, não há decretos. nem despachos. aqui há duas janelas e uma porta. um quadro. um desenho na parede e uma caneta azul. aqui na sala de aula não há conteúdos para ensinar. há conversas que se vão tendo. coisas simples que se dizem. há histórias contadas em jeito de desabafo. e um pedido de atenção. há uma gargalhada verdadeira e um elevar de voz. há uma caneta que cai ao chão. há um erro dito. uma resposta errada. uma correcção. há um som constante das vozes. e um cansaço brincalhão dos corpos. há olhos que brilham. e perguntas por fazer. há um movimento constante. sempre, sem cessar. há gente que não está, mas chega. músicas que não se ouvem mas das quais se fala. e nomes. e nomes das coisas. e coisas. não há impactos. ou médias. há rostos. miúdos. pequenos. de gente por fazer. e histórias escondidas por contar. aqui, na sala de aula, ninguém é o que parece. e no entanto, somos todos muito mais do que em qualquer outro lugar. e há um professor que sou eu. e isso basta. mesmo sendo pouco. e há uma janela desenhada a giz. uma que dá para todo o lado. não daquelas verdadeiras. das outras. das ainda mais verdadeiras. das da imaginação e o saber. aqui, na sala de aula, há tudo o que falta em todos os outros lugares. e ainda bem que assim é. porque aqui, tudo isto, é só mesmo, uma sala. para uma aula. repetida vezes sem conta. felizmente.

22/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

daniel faria

||| educação sem rei nem roque...


||| ... [aqui] acabam os testes intermédios. diz a nota que dez anos depois de ter começado o "projecto". afinal, não servem o propósito para que foram criados. e pronto. mais uma. ainda vão descobrir que uma overdose de exames é contraproducente e vão emitir uma nota informativa a dizer: afinal, não cumprem, os objectivos para que foram inicialmente criados. e é isto. e isto tudo é tudo o que resta. dos erros nos concursos a erros de projectos com décadas estamos assim. é quase um estado de sítio ao contrário. e por muito que o professor faça tudo para que isso não entre na sala de aula e afecte cada momento, entra. porque se está a preparar para uma coisa e muda tudo antes até de se acabar de ler as regras do jogo. soa a estranho. soa a desaire. soa a falhanço. o pior é que "transpira" incompetência e falta preparação. mas é simples. porque a ideia é simples. os alunos estão ali para serem ensinados. os professores para cumprir o que se deseja que ensinem e como ensinem e pouco mais. a escola devia resumir-se a isto pela lógica com que tudo isto está "montado". e cada missiva enviada serviria para isso. para ajudar a ensinar. para procurar os "resultados". mas chegados ao momentos do roque, em que o rei se esconde entre os seus peões, sacrificando até alguns deles para salvação própria, reparamos que tudo isto nunca teve lógica. uma lógica coerente. preparada. profunda. teve uma estratégia que é outra coisa. mas em educação as estratégias são coisas que nunca funcionam. uma visão, uma certeza, uma ideia, uma lógica, sim. porque a escola ainda é o lugar do conhecimento e a esperteza é o lugar da estratégia. as duas não são compatíveis no espaço da escola. e fecho a porta da sala. quero que nada disto lá entre. dizendo como um dia ouvido: deixem-me trabalhar. mas desta vez, dito a sério. parem de brincar com a escola.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| e de soslaio, a memória...


||| ... nunca percebi esta coisa da cultura do "tem de ser"na escola. ou da mediocridade, na escola. não do mau, mas do médio. o aluno médio. o resultado médio. a expectativa média. cerca-me a esperança. e na minha sala de aula não há lugar a estas coisas. por isso decidi colar na parede da sala todas as estatísticas médias. e o ranking de uma escola. e mais uns números. escrevi por cima a palavra "mediocre". seguido de: de médio. e rematei com uma legenda: nenhum de nós, nesta sala, estamos nestes números. primeiro estranharam. depois, perguntaram. depois revoltaram-se. depois pediram oficialmente para tirar da parede e por fim, perceberam. não, não era um incentivo para a superação. nem um vilipendiar dos números. era só números. e ninguém ali estava lá. eram números de outra escola e de outros alunos. que não descreviam as realidades de outras escolas nem de outras salas de aula. eram só números. não retratavam nada. nenhuma aula dada, nenhuma aprendizagem conseguida. nenhum esforço ou nenhum mérito. nenhum dia mais difícil, nem nenhum dia mais fácil. eram só números. nenhum de nós estava ali e ali não estava nada. de soslaio, a memória parecia dizer-me que era essa a maior lição que tinha para dar aos meus alunos. deviam estar ali, para estar. não para se transformarem naquilo. e pedi para retirarem aquilo da parede. para rasgarem e colocarem no lixo. ali não estava nada. só números. uma realidade que queriam que fosse viva, mas não era. por isso, agora, livres daquele espartilho da memória podíamos trabalhar. para o sucesso. para a excelência. mas partindo do zero. do nada. do que há para realmente [da realidade, da nossa realidade ali em sala de aula] para construir. 

19/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

josé d'almada negreiros

||| é esquisito, só isso...


||| ... a mais b igual a c. ó professor, fogo, consigo não dá. a maria era daquelas miúdas giras. sim, daquelas terríveis. obstinadas. traquinas. inconformada. crescida já, porque é "do secundário". mas miúda. ó professor, então o que é que vai fazer? diga lá. fogo... não vou fazer nada. ó professor, eu até gostei de si, mas é impossível. nunca sei o que vai fazer. pois é, gerir o imprevisto é algo que vocês não sabem, não é. eu explico-te. vocês consideram sempre que nós, professores, temos sempre a mesma solução para os mesmos problemas. que agimos como vocês sabem que temos que agir. pois eu tenho um fusível avariado e não uso das mesmas coisas para gerir os dias. pois professor, por isso é que é impossível. pois sou. mas diz antes: imprevisto. não consegues prever o que vou fazer não é? é isso professor. pois. então pensa. vou-te dar uma coisa para leres. [tenho sempre uma cópia na mala de um resumo ilustrado]. toma. a teoria do caos, professor? sim. lê. vais perceber. e vais perceber que ser professor é estar aqui. e não ter uma fórmula mas muitas. pode fazer-te confusão. mas lê. depois falamos o resto. 'tá a ver professor! quem é que anda com estas coisas na mala! ninguém! é pá, gosto de si. mas você é impossível. dá-me cabo da cabeça. é que não se passa! imagina, maria, que vais ter um ano de te eu a dar-te cabo da cabeça. é bom sinal. é sinal que vai dar uso a essa massa cinzenta que aí anda. começas pela teoria do caos. e espera pelo resto que tenho na mala para a segunda semana de aulas. há mais. e lá foi ela a ler e eu a sorrir...

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| fecha-se a primeira semana...


||| ... do convento só sabe quem lá vai dentro. nunca soube dizer este provérbio. também acho que não vou aprender agora. gosto de o dizer assim. está errado mas gosto do som da coisa que se enrola na língua como algo antigo. um erro antigo. e terminada a primeira semana de aulas, de escola, na escola, o que me assusta é o estado em que está tudo. não foi só a chuva que percorreu estes dias e tornou tudo cinzento. foi o estado das coisas. o estado de alma, da e na escola. não há encanto. não há calma. não há paz. não há ordem. há a palavra cumprir que tenho dito tanto aqui, por todo o lado. há já um cansaço maior do que em qualquer arranque de ano lectivo anterior. mas há esperança. que isto "rebente". que isto "mude". há. silenciosa. mas há. e há professores que seguram tudo com as mãos. que seguram a escola com as mãos. e com o sorriso. ainda. ainda há. e isso é a maior conquista que temos. e há gente que se ajuda. e gente que quer fazer melhor. e tenta-se que isso não chegue aos miúdos mas nunca um ministério esteve tão dentro da sala de aula como este. é quase impossível fechar-lhe a porta de tanto regulamento, despacho, ordem e nota informativa em jeito de "façam assim". mas ainda é possível. ainda, na minha sala de aula, estou só eu e eles. os miúdos. graças aos deuses que ajudam. e a mim que tento afastar cada um deles, dos miúdos, disto. e se for preciso mando pintar folhas em branco de várias cores para colar nas janelas para dar cores ao espaço que se acinzenta. já o fiz uma vez. não seria algo de novo. fechada esta semana, venha a esperança. maior. porque tarda. porque é tarde. antes que seja, verdadeiramente, tarde...

18/09/2014

||| não foi erro. foi incongruência...


||| ... do regozijo. há algo nele que me devora a alma, sempre. rematado com um "ahhhhh" sonoro. afinal... afinal... isto depois de um homem achar-se vestido de um devir histórico dizendo: é histórico, que perante os deputados um ministro diga que há incongruências numa conciliação de fórmulas. só tentar desmontar esta frase seria um erro. nem me apresso a fazer tal loucura. e depois o remate. vamos corrigir. não o erro, mas a incongruência. quem está, fica. quem não está, não fica prejudicado. os alunos, também não. e desculpem. e está feito. arrumam-se os papéis, levantam-se as hostes. e está feito. os louros ficam para cá para fora. afinal ele estava errado e nós certos. afinal... mas fica tudo resumido a um por cento. ainda dito no histórico pedido de desculpa por uma fórmula matemática mal interpretada. juridicamente, mal interpretada. ou juridicamente, mal aplicada. a culpa não é do matemático. é dos de letras. dos juridicamente, matematicamente, inconsequentes.  tudo se podia resumir a isto se um por cento não fossem milhares de pessoas. se isso não fosse tudo só uma ponta do iceberg. não, não estou contente por ver um homem que dirige a educação do meu país dizer "ups", houve um erro. desculpem. não fico contente com nada disso. nem nenhuma vitória assim tem sabor a qualquer coisa boa. tudo é um erro. não o um por cento mas os noventa e nove restantes, também. e quando já se prejudicou tanto e tanta gente, não há lugar a vitórias mas só a perdas. por mais difícil que isso possa ser de admitir. e sim. agora há que refazer tudo, como foi dito. soa-me que isso será pior a emenda que o soneto. justo, mas novamente injusto. certo mas novamente criará erros. ou incongruências. ou pior, injustiças. porque o que está errado não é a fórmula. é a política. mas essa seria, sim, uma desculpa a pedir, histórica. mas impossível.

||| palavras [im]perfeitas...

josé d'almada negreiros

||| aquela aula, aquele grito...


||| ... era o desafio. o peito feito. o levantar brusco. era tudo isso, ali, naqueles segundos. nas primeiras aulas. a marcar a posição. eu mando aqui. e deu um grito. ele. miúdo de tamanho pequeno. como se fosse possível tal coisa. arrisca um palavrão. olha-me para ver o que faço. os outros olham-me para ver o que faço. tinha acabado de pousar a mala na mesa. ia para a abrir. segurei a mala com uma mão. dentro, uma aula preparada. muito gira. bem pensada. olhei-o. pensei em mil coisas para fazer. não fiz nada do que pensei. abri a mala. tirei o telemóvel. e os auscultadores. disse baixo e de forma cadenciada: a aula terminou. segurei a mala, fui para a porta. sentei-me no chão, na ladeira da porta que dava para um pátio. durante cinquenta minutos fiquei ali. a ouvir música e eles sem saber o que fazer. ouvi: deixa-o estar. ouvi os movimentos inquietos. ouvi silêncio. terminou o tempo da aula. levantei-me e fui-me embora. um miúdo no final veio perguntar-me o que tinha sido aquilo. respondi: uma lição. não foi uma aula, foi uma lição. um dia depois, nova aula. a que estava guardada na mala. dada em que eles gostaram de participar. como se não tivesse havido nada. como se a importância tivesse estado na lição. e não na aula. porque, por vezes, o silêncio é muito mais desconfortável do que a palavra esperada. talvez isso. ou sorte. mas foi o que apareceu. o que apeteceu. o que pareceu que ia resultar. e resultou. porque sou pelo não-confronto. porque acredito que, no fundo, o silêncio tem um poder maior do que a palavra que agride sempre. e tudo correr melhor. somente isso. ou isso tudo.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| depois de salazar dormir...


||| ... enquanto salazar dormia estava tudo bem. o pior era depois de salazar dormir. desde que conheci o  senhor salazar nunca mais fui o mesmo. e era sempre depois dele dormir. dizia sempre: ó professor, são os meus dez minutos de descanso, porra. era mesmo assim que rematava a coisa. era dele. e o senhor salazar era daquelas figuras únicas. alto, magro, de olhar taciturno. metia respeito. até a mim metia respeito. quando era preciso dizer que eu não podia estar ali com os miúdos na aula mandavam sempre o senhor salazar. e eu obedecia. devia ser dele. ou do nome. mas era um homem imensamente doce com os miúdos. tinha rebuçados na algibeira. dava aos mais pequenos. dizia-me sempre, depois de dormir: ó professor, deixe estar. eles não sabem o que é a vida. e ainda bem. toma lá cachopo. e eram estas palavras. as palavras. com ele, o salazar, aprendi a respeitar imensamente os funcionários das escolas. tal como hoje o faço. e hoje recordei-me dele. do senhor salazar. foi numa das primeiras escolas em que estive. foi ele que me recebeu no primeiro dia. no portão. fiquei amigo dele. tinha o hábito de dormir entre as duas e as duas e meia da tarde. acordava de mau humor. sempre. era sempre pior pedir o que fosse ao salazar depois dele dormir. mas quando era intervalo lá estava ele. de bata azul, limpa, a olhar para os cachopos. era ssim. só isso. dizia ele nas conversas que fomos tendo sempre de pé, sempre a olhar, que era assim que mantinha a ordem. olhando por eles. aprendi isso com ele. nesse ano raramente fui à sala dos professores. ele, o salazar, era o melhor conversador do mundo. e sabia de educação o que eu nunca saberei. aprendi com ele tanta coisa. ele, o salazar, que me faz falta. mas que encontro em cada funcionário da escola. que diz saber o nome de todos os miúdos. que olha por eles. e sem quem, a escola, não funciona. espero, para bem dos cachopos, que o salazar ainda ande por aquela escola. um dia volto lá. para o ver. a ver os cachopos. mas vou antes dele dormir...

17/09/2014

||| isenção de penalização ou o fim da moral...


||| ... e quando parecia impossível fazer mais, mais se fez. lido aqui. a um professor que preste "falsas" declarações nas respostas aos critérios ficará isento de penalizações. porquê? porque os critérios estavam mal escritos? porque a imoralidade é maior do que a forma como tudo está feito. porque a justiça não é algo que já se ensine na escola? porque já tudo é permitido? porque não importam os fins, nem os meios, nem a forma? e tudo ganha ar de queda do império. porque tudo é amoral. tudo. a política, a forma, o conteúdo, as regras, a ausência das regras. e chegam-me relatos. lidos, partilhados em jeito de confissão. não pude ficar porque a directora me pediu para provar que tinha feito um projecto mas como não pedi para colocarem no processo na escola anterior tive que ceder o lugar. não tinha um papel. e a moral passa a ser uma coisa que gira de mãos em mãos. de uns que ainda a querem conservar. para outros a quem isso pouco importa. basta a palavra dada. e estamos na lei da sorte. ou da imperfeita forma de gerir isto tudo. no capricho. na boa disposição. no ir com a cara deste ou daquele. estamos reduzidos a isto. ou melhor, fomos reduzidos a isto. ou ainda, deixámos que nos reduzissem a isto. e agora retiram a última gota de moral e justiça que tudo isto tinha. mas não. vão dizer que era um erro de interpretação. que não era para ser lido assim. mas que quem está, fica. ou coisa parecida. e as voltas foram dadas. o sistema mudado, as injustiças cobertas sob um manto tutelar que tudo permite. é isto. é a isto que isto tudo está reduzido. a nada. ao impossível. feito possível. com as palavras vacilantes mas disfarçadas. no isento de penalizações. uma só frase. uma imoralidade inteira. legitima-se, na força, a desobediência civil. haja a mesma coragem e o mesmo descaramento para a "implementar". nem que seja pelo breve vislumbre da justiça, na escola. ensinada.

||| palavras [im]perfeitas...

josé d'almada negreiros

||| aula dois, ou a construção de algo...


||| ... pedagogia: a construção de uma lógica de turma, de grupo, de confiança e segurança é fundamental para o trabalho em contexto de sala de aula, assim como, para preparar os alunos para desafios individuais e colectivos a realizar ao longo do ano. nesta aula a lógica da interacção pedagógica é essencial para a dinâmica construtiva de elementos comuns necessários à construção colaborativa do conhecimento para desafios futuros.

||| ... metodologia: esta é uma dinâmica que exige alguma preparação inicial por parte do professor. o exercício tem a duração máxima de cinquenta minutos. o professor deve arranjar quinze vendas para os olhos [para trinta alunos], um balde e giz. a aula decorre no exterior em espaços comuns e termina na sala de aula. num espaço comum [recreio, pátio, etc...] o professor diz aos alunos para se colocarem em pares e em fila indiana. a ideia da fila indiana remonta ao principio de auxilio mútuo e confiança. e será isso que se explorará com esta dinâmica. dois a dois e em fila, o professor distribui uma venda a cada par de alunos pedido para um colocar a venda. o outro deverá guiar o parceiro numa caminhada que é liderada pelo professor em passo lento e cadenciado. feita esta primeira caminhada, trocam os pares e repetem. devem depois fazer a mesma coisa, repetindo o caminho mas com o par apenas a tocar no ombro do parceiro para o guiar, tocando do lado direito para virar para a direita e do lado esquerdo para virar para a esquerda. repetem o caminho. findo isto, o professor traça no chão um linha com o giz fazendo um caminho com uma distância razoável. poderá e deverá ter curvas e uma lógica de caminho determinado com princípio e fim. coloca o giz que resta no balde e dá ao primeiro aluno na fila que deverá caminhar de costas sobre a linha guiando o parceiro apenas com o som do giz a bater no balde ao chocalhar este. chegando ao fim da linha passa o balde ao colega até conseguirem todos terminar o percurso. findo isto está terminada a aula. geralmente faço mais uma actividade ainda com estes recursos. à porta da sala coloco os alunos todos de olhos vendados e digo que devem entrar na sala, fazendo o menor barulho possível, sentando-se numa cadeira. repetem até haver o menor número de ruído possível. este é daquelas actividades em que o professor terá que demonstrar abertura e boa gestão dos comportamentos mas cujo resultado é mais importante do que pode parecer no final da sua realização.

||| ... esta aula é sobre: as relações e a formação do espírito de turma, assim como, a gestão dos comportamento por via da observação directa/experimentação. tem como base uma aprendizagem em contexto participada, reportando a uma lógica de confiança e segurança no e em grupo/turma.

||| leituras [im]perfeitas...


||| música [im]perfeita...

||| não sei ensinar, [im]perfeitamente...


||| ... pegar no programa. olhar para o calendário. relembrar o ouvido na reunião. as metas. o ranking. a posição da escola. a posição da disciplina. o valor que é preciso subir. os exames. preparar, cumprir. planificar tudo. não há tempo para mais nada que não seja o programa. cumprir o programa. pegar nisto tudo. olhar para o meu velhinho bloco de apontamentos. fechar as páginas. colocar a lapiseira sobre o velhinho bloco de apontamentos. respirar fundo. pensar, por uns segundos, estou aqui. tem que ser. deixar cair os braços ao longo do corpo. dizem que ajuda. voltar a colocar as mãos na mesa. dizer em pensamento: eu não sei ensinar assim. não para isto. não desta forma. não com estas palavras nem com estes fins. pensar que preciso de formação. corrigir a palavra. precisar de formatação. não sei ser professor assim. agora. nesta escola. para estes fins. não sei. pensar melhor. não é não saber. é não querer. ou talvez as duas coisas. procurar formação. encontrar qualquer coisa que sirva. pensar que não devia ser assim. ouvir na cabeça repetidas vezes sem conta: cumprir, preparar, atingir. as palavras como pedras a dizerem-me que não sei ensinar para isso. o corpo a dizer que não quer. não quer cumprir, isso. respirar fundo outra vez. ver uma imagem de um homem a despir o fato de professor e a colocar o fato de funcionário de uma carpintaria industrial. fechar os olhos com força. desistir. não, isso não. dizer não. sim, isso sim. pegar no bloco de notas. anotar: dizer não. ensinar. verdadeiramente ensinar. mesmo contra a corrente. escrever novas palavras: criar, imaginar, descobrir, aprender, saber, reflectir. levar o corpo da mesa. saber que ainda sei ser professor. mesmo que digam que não. só não quero é esta forma de o ser que me dizem que tem que ser. somente isso. afinal era tudo, somente, revolta.

16/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

al berto

||| elogio da desonestidade [da escola]...


||| ... por acaso não fiz. mas podia ter feito. podia ter dado aos meus alunos indicações sobre a avaliação. mas ontem, quando todos diziam: "olá, bem-vindos de volta à escola", saía um despachado despacho sobre o processo de avaliação. chegado o tempo de pausa para o ler, li. está, aqui, para quem não o leu. e li tudo. até quem assina. e passei pelos "grupos de homogeneidade relativa". posso discordar mas aceito que em alguns contextos fazem sentido, mas não integrados neste despachado despacho. e fui parar a tudo o resto. dispensados os que não fazem parte dos "estudos gerais". aqueles que, não por vocação, mas por opção voluntariamente forçada, vão parar a cursos profissionais, vocacionais e outros ais que tais, dispensados. não é preciso lá irem. podem estragar a coisa. a coisa é a média. o número. o registo estatístico. e os outros. aqueles que precisam de lá ir, vão lá até conseguirem igualar a média. duas vezes no nono ano. apoiados até mais não com apoios de todos os lados. e pensei alto. talvez alto demais. que desonesta escola esta em que terei que trabalhar. estarei, eu, a trabalhar para isto. isto que um gabinete qualquer faz chegar à escola no meu primeiro dia de aulas para me lembrar que estou a trabalhar para os exames. nada mais. só isso. para isso. e para estes exames. este sucesso estatístico urgente. para provar e comprovar a linha de rumo. mesmo que tudo seja manipulado em frente aos meus olhos e eu seja transformado num, em mais, um instrumento ao serviço de tudo isto. mesmo eu sabendo o que está ali, na lei, que me "mandam" ler. que me "mandam" cumprir. mesmo sabendo eu que estarei a contribuir para a desonestidade da escola. enquanto instituição. enquanto fim. enquanto objectivo. e está lá tudo. escrito, descrito. servido em prato dourado decorado com a exigência e o sucesso desejados. na escola, nesta escola que passa a mentir, a ser instrumento, tal como eu, professor, a quem isso foi lembrado no primeiro dia de aulas. resta cumprir, penso. ou resistir, desejo. ou dizer que a escola não pode e não deve ser isto. que isto tem que ter um fim. mas a máquina está afinada. está bem pensada. desgastada e sem forças para resistir. pandora abriu a caixa há muito tempo e só resta uma ténue esperança que uma catástrofe acabe com isto. a bem da escola. ou do que resta, dela...

||| música [imperfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| a escola não é uma banda...


"é na limitação que se revela o mestre."
goethe

||| ... quando vejo partilhada a afirmação de josé gil, pensador por quem tenho imensa estima, penso muito. eu não gosto de ter no ministério que me "tutela" o pior ministro de sempre. queria o contrário. ter o melhor ministro de sempre. isso sim, partilharia. isso sim, seria motivo de conversa. e quando, ontem, ouvi as palavras de quem se julga maestro numa orquestra que não é sua, assustei-me.não mais do que já ando. fiquei foi no estado de susto. de suspensão. revi toda a filosofia e linha de rumo deste momento. tudo numa frase só. uma visão do que é a escola. do que querem que seja a escola, agora. a frase era limpa. sem qualquer preconceito ou desvio. uma harmoniosa descrição lógica do que se pensa. os alunos estão nas aulas a aprender. os professores estão nas aulas a ensinar. os alunos estão entregues e os pais vão lá visitar. e está feito. aqui, nesta frase, reside toda a política. toda a pedagogia. toda a linha de rumo. toda a ideia de escola. toda a normalidade. e não, a escola não é uma orquestra. é só mesmo isto. a visão mais limpa e mais pura que podia ser dada. para que todos entendam. não pode ser mais do que isto. é só isto, mesmo. e pode parecer simples. mas não é. é a ausência de tudo no mais puro e simples dos raciocínios lógicos. sem visão nenhuma. sem beleza nenhuma. sem nada. sem pessoas. sem espaços. sem projectos. sem apoios. sem inovação. sem arte, sem nada. uns ensinam, outros aprenderem e outros vão lá visitar. e mais claro não podia ser. é o resumo perfeito. para quem acha que tudo são erros e lapsos desta política ou que não tem linha de rumo, eis que aqui está. mesmo ao som da música da orquestra que diz o mesmo de forma mais eloquente tudo se resume a isto. a uma visão nula da escola. porque uma escola não é uma orquestra. nem uma banda. nem uma equipa. nem nada disso. nem é só o lugar onde se colocam uns para aprender e outros para ensinar e uns que lá vão visitar. não é só isso. é tudo isso e muito mais. e em cada palavra dita reside um profundo desrespeito pelo trabalho diário de todos. não só dos professores. mas de todos. mas ao menos fica claro. limpo. perfeitamente descrito. é isto que querem que a escola seja. só isto. nada mais. tudo o resto é dispensável. desadequado. inquietante. porque tudo é normal quando é assim. só isto. nada mais do que isto. nada para além disto. e é tão simples que ofende...

15/09/2014

||| palavras [im]perfeitas...

cecília meireles

||| e se não for um erro?...


"a matemática é a única ciência exacta em que nunca se sabe do que se está a falar nem se aquilo que se diz é verdadeiro."
b. russell

|||... vou admitir que alguém, ao fazer o formulário, numa fórmula qualquer difícil de conseguir passar para uma plataforma cada vez mais "obsoleta", se tenha enganado. vou também admitir que a ordem saída de um gabinete tenha sida mal interpretada e com isso a fórmula tenha tido um lapso. ou, como aqui explicado, seja um lapso matemático. vou admitir isso tudo. e que basta um clique de regresso para colocar tudo na ordem certa, mesmo com o caos que isso irá provocar, uma vez mais com gente já colocada nas escolas e apresentadas às turmas. mas vou admitir também o contrário. que não é um erro. talvez em contra-corrente. talvez porque sou um adepto profundo das teorias do absurdo [e da conspiração por consequência]. vou admitir que isto é uma estratégia. uma visão. uma forma de governar a escola num outro modelo que vem a nascer nos últimos anos. vou admitir que nada disto é um erro. que se quer dar às escolas o poder de escolher quem querem para o lugar que querem. que se quer destituir os professores de qualquer lógica de coerência no seu percurso profissional mesmo sabendo que este ano muito mais gente que era necessária ao sistema foi, por este, afastado. vou admitir que não é um erro. que é uma forma de juntar tudo numa coisa que já se passava separadamente e que ninguém conseguia ver por estarem todos preocupados com as suas árvores e a floresta era algo dos outros. é que isto já se passava. bem ou mal, com esta ou outra fórmula, já existia. os critérios de alfaiate. a lógica da escolha em detrimento da lógica de percurso de cada um, como professor ao longo dos tempos. do cada um por si, contra todos. estava e está implícita há anos no sistema que está a nascer. que nasceu com esta lógica da bolsa onde cabem todos sem caber só mais do que um para cada lugar. vou, por isso, admitir que não é um erro. que nunca foi. que ninguém se enganou ou leu mal a fórmula. vou admitir que é uma visão do professor como recurso dispensável numa lógica de mercado do salve-se quem puder e morra na praia quem tiver que morrer. que abandone o sistema e não chateie mais. hobbes já dizia que o homem era lobo do homem e assim fica provada a teoria que um modelo tão liberal tanto gosta de provar. vou admitir que não é um erro. mesmo sabendo que deve ser. deve mesmo ser. alguém introduziu erradamente a fórmula que baralhou tudo. deve ter sido isso. só pode ter sido isso. porque se não foi erro e é uma estratégia e visão para a escola e para os professores, então, está tudo dito...

nota oficial de explicação, aqui.

||| música [im]perfeita...

||| leituras [im]perfeitas...


||| hoje é o primeiro dia do resto...


||| ... é assim. num ápice. última conversa antes de sair da sala de professores de chave na mão e livro de ponto. antes de verificar a turma para cumprir os primeiros rituais que se vão manter por um ano lectivo. olha-se para os rostos na lista. diz-se: lá vamos nós. e vamos. percorremos os corredores de olhar suspenso. vemos tudo. os miúdos que dizem olá. aqueles que reconhecemos. aqueles que são novos. há os sons, novamente. as primeiras advertências dos funcionários. as mochilas ainda novas guardadas. o movimento do primeiro caminhar para as salas. aqueles que não sabem onde são as salas. os mais pequenos que sorriem. os maiores que conversam. os encontros. os reencontros. os pais que vão deixar os miúdos ao portão. ou os avós. e o movimento adensa-se. torna-se visceral. vivo. intenso. a campainha marca a hora. ou a hora chega. abra-se a porta. pousa-se o livro de ponto e a pasta. ouve-se o arrastar das cadeiras e o burburinho que é preciso fazer assentar. respiramos fundo uma última vez. estamos ali. é a nossa primeira aula. é o nosso primeiro dia. do resto. de tudo o resto que está para vir. abrimos um sorriso. dizemos: olá, eu sou o vosso professor de... estamos de regresso. há nisto, toda a magia do mundo. e das coisas. há nisto, algo de tão imenso, de tão grande, de tão belo que só por isto vale a pena ser-se professor. bom regresso às aulas. bom regresso à escola. para todos/as.